Barbara Para Sempre

Marcando presença

Barbara Hammer, um dos maiores nomes do cinema experimental estadunidense e do cinema sáfico mundial, foi alguém que passou a vida inteira recusando o apagamento. Num gesto de perpetuação, o documentário Bárbara Para Sempre, de Brydie O’Connor, reconstroi sua trajetória e, para isso, resgata a obra e arquivos pessoais da diretora. O que se vê na tela é a história de alguém que compreendeu muito cedo que, diante da falta de representação, registrar a própria existência era um gesto político. Se o mundo se recusava a produzir – e preservar – imagens de mulheres lésbicas, Hammer decidiu ela mesma fazer isso.

A decisão toma toda a sua filmografia, com a câmera aparecendo como extensão do corpo, instrumento de desejo, ferramenta de observação e mecanismo de permanência. Hammer se filma e filma amantes, amigos, paisagens, manifestações, experiências sexuais, o envelhecimento e a doença. Ela filma porque entende que aquilo que não é registrado corre o risco de desaparecer duas vezes: da vida e da memória. O’Connor identifica o gesto e faz dele o principal ponto do documentário. Em vez de organizar uma biografia convencional, constrói uma experiência que dialoga diretamente com a obra da cineasta.

Além de tocantes depoimentos da parceira de vida de Hammer, Florrie Burke, a quantidade e qualidade de imagens que a realizadora deixou para trás também emociona. Não apenas pelos registros como documento, mas pelas vidas documentadas. Em um cinema que nasce da necessidade de ocupar um espaço visual historicamente negado aos corpos queer, a obra de Hammer se estabelece sem pedir autorização para existir. Seus filmes aparecem, desejam, envelhecem, adoecem e amam como bem entendem. Estar em quadro é resistência.

Barbara Para Sempre funciona também como uma reflexão sobre arquivo. Cada imagem preservada desafia uma lógica histórica que frequentemente empurrou experiências lésbicas para a invisibilidade. O filme de O’Connor compreende o valor do arquivo como demarcação de espaço, como território de disputa. Afinal de contas, decidir o que merece ser guardado também é decidir o que poderá ser lembrado no futuro. Foram décadas construindo esse acervo não apenas para si, mas para tantas outras pessoas que ainda nem haviam encontrado suas próprias imagens.

Ao longo de mais de cinquenta anos, Barbara Hammer transformou o cinema em um espaço de presença. E Brydie O’Connor responde a esse legado criando um filme que não trata sua personagem central como uma figura encerrada no passado. As imagens continuam vivas, produzindo sentidos, encontrando novos espectadores e reivindicando espaço no presente. Hammer filmou para não ser apagada e não desaparecer. Barbara Para Sempre mostra que ela conseguiu.

Um grande momento
Florrie fala de Barbara

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