Cinemateca da Quebrada propõe preservação a partir dos territórios

A preservação audiovisual brasileira precisa olhar para além das instituições tradicionais. Essa foi uma das principais reflexões apresentadas por Lincoln Péricles durante a masterclass Por uma Cinemateca da Quebrada, realizada na 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. Cineasta, pesquisador e fundador da iniciativa, ele defendeu a construção de políticas de memória que partam dos próprios territórios periféricos e de seus realizadores.

Segundo Lincoln, a ideia da Cinemateca da Quebrada surgiu há cerca de dez anos, quando tentou depositar sua própria filmografia na Cinemateca Brasileira. A experiência revelou um desencontro entre as estruturas existentes e as formas de produção desenvolvidas nas periferias. “Ninguém sabia o que fazer quando alguém queria deixar os próprios filmes lá”, relatou.

A partir dessa percepção, começou a tomar forma um projeto que hoje articula preservação, pesquisa, formação e difusão. Para o realizador, a institucionalidade do cinema brasileiro ainda não contempla plenamente produtores oriundos das periferias e mantém uma lógica em que o conhecimento chega de fora para ensinar comunidades que já produzem saberes e práticas próprias. “A quebrada já sabe fazer, inclusive cinema”, afirmou.

Lincoln destacou que o trabalho da Cinemateca da Quebrada não busca definir quais obras merecem ou não ser preservadas. O objetivo é dedicar atenção a produções historicamente negligenciadas pelos mecanismos tradicionais de guarda da memória audiovisual. Nesse sentido, o arquivo ocupa um papel central em sua própria trajetória artística e política.

Durante a palestra, o cineasta também questionou classificações e hierarquias estabelecidas pela pesquisa acadêmica e pelas instituições culturais. Defendeu a autodeclaração da obra audiovisual, argumentando que qualquer produção pode ser considerada filme quando assim é reconhecida por seu autor. Para ele, parte dessas distinções deriva de uma herança colonial que continua organizando o olhar sobre a produção cultural brasileira.

A proposta da Cinemateca da Quebrada está estruturada em quatro frentes de atuação: educativo, pesquisa, difusão e autoformação. O primeiro recurso captado pelo projeto foi destinado justamente ao levantamento de dados e à pesquisa, entendida como ferramenta fundamental para consolidar conhecimento sobre a produção audiovisual periférica. “Parar de estudar não é uma opção. O povo da quebrada ainda precisa fazer três vezes mais para ser validado”, observou.

O projeto também estabelece conexões internacionais. Lincoln relacionou a condição de populações negras e indígenas no Brasil à experiência de deslocamento vivida por outros povos, afirmando que muitos já são refugiados dentro do próprio território. Nesse contexto, mencionou ainda as aproximações políticas construídas com iniciativas ligadas à Palestina e a outros movimentos de resistência.

Entre as ações realizadas ou em andamento no ciclo 2026-2028 estão a catalogação de cem filmes na publicação Manifesto Mutirão, mostras territoriais, 13 instalações internacionais, 13 oficinas gratuitas, sete processos de formação especializada, a realização do 1º Fórum Internacional do Cinema Periférico e a criação de um espaço físico para a Cinemateca da Quebrada. A gestão é compartilhada pelos coletivos 600 Filmes, Astúcia Filmes, Quitus Coletivo e Ramo.

Ao longo da masterclass, Lincoln insistiu na necessidade de tensionar espaços institucionais para incluir a produção dos territórios periféricos sem abrir mão da autonomia. “Estamos fazendo e, se eles precisarem, podemos ajudar a fazer”, resumiu. Para ele, a preservação não pode depender exclusivamente das estruturas já estabelecidas nem aguardar a iniciativa daqueles que historicamente excluíram determinadas produções dos processos de legitimação.

A fala foi encerrada com uma defesa da preservação como prática cotidiana e urgente. “Todo filme é um filme de arquivo”, afirmou. Mais do que proteger obras do passado, a proposta da Cinemateca da Quebrada busca garantir que os filmes produzidos hoje nos territórios periféricos tenham as mesmas condições de permanência e reconhecimento que qualquer outro capítulo da história do cinema brasileiro.

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