Conversando sobre cinema brasileiro com Karine Teles

Homenageada da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a atriz Karine Teles foi celebrada por uma trajetória profundamente ligada ao cinema autoral brasileiro, marcada por personagens densos e escolhas que dialogam com o espírito histórico do festival. Em um evento dedicado ao encontro, à diversidade e à reflexão crítica sobre o audiovisual, a homenagem surge como reconhecimento a uma carreira construída em sintonia com os debates que Tiradentes insiste em provocar ano após ano.

Com uma carreira consolidada no teatro e no cinema, Karine Teles construiu no audiovisual uma filmografia ligada a narrativas íntimas e políticas, com trabalhos marcantes em Riscado, Que Horas Ela Volta?, Benzinho, O Lobo Atrás da Porta e entre outros títulos importantes para o cinema brasileiro. Ela contou que o reconhecimento em Tiradentes chegou de forma inesperada. “Eu fiquei muito surpresa porque eu realmente não imaginava”. A aceitação da homenagem foi imediata e veio com um sentimento que se intensificou ao longo da mostra. 

A atriz disse que o maior sentimento e o de gratidão por ter o trabalho reconhecido em um festival que “se interessa pela diversidade, pela discussão; que promove fóruns, encontros, debates e oficinas”. Karine destacou características importantes da Mostra de Tiradentes, como a convivência entre gerações e trajetórias distintas, com uma programação que mescla a produção de “gente que está começando no audiovisual, gente que tem carreira consagrada, e todo mundo aqui interessado, discutindo”. 

Karine também comentou sobre a relevância do evento enquanto espaço essencial de articulação do audiovisual brasileiro. “A Mostra de Tiradentes é esse lugar de encontro, de debate, de diversidade”. Para ela, o fortalecimento do setor passa, necessariamente, pela pluralidade. Quanto mais vozes diferentes circulam, mais chances existem de se construir uma indústria sólida. “Quem sabe daqui a alguns anos a gente não comece a ter profissionais com carreiras estáveis no audiovisual”, disse ela ao pensar nas inquietações provocadas em Tiradentes, 

Para ela, a homenagem é quase como um gesto de confirmação de percurso, um sinal de que está seguindo o caminho artístico que escolheu e que faz sentido para ela.

Investir para gerar renda

Karine também falou sobre a regulamentação das plataformas de VoD, o primeiro tópico da Carta de Tiradentes, assinada no último dia 28 de janeiro. Para a atriz, a discussão não é abstrata nem ideológica, mas profundamente material. Ela lembra que o cinema e o audiovisual brasileiros competem em condições desiguais. “O que vem de fora vem forte, vem com investimento, vem com apoio e a gente luta uma batalha meio injusta.” Nesse cenário, regulamentar as plataformas se torna fundamental para criar espaço para a cultura nacional e, sobretudo, para fortalecer a indústria.

Karine insiste que a economia criativa não deve ser vista apenas pelo viés simbólico. Ela destaca que “gera dinheiro, gera imposto, amplia os postos de trabalho, bota o pão na mesa de muita gente”. Para ela, políticas públicas nesse campo são decisivas porque fomentam a produção interna e ampliam o acesso do público. Afinal, como ela mesma aponta, se as pessoas sequer sabem que os filmes existem, não há como criar público.

Dudu Mafra/ Univeso Produção

A ausência de salas de cinema na maior parte dos municípios brasileiros reforça essa desigualdade de acesso, tornando ainda mais urgente a criação de políticas que sustentem a circulação das obras. “Todas essas políticas são políticas pensadas nesse sentido: de fomentar a produção dentro do nosso país porque se a gente é mais assistido, as pessoas entram mais em contato com o que é feito, têm a chance de descobrir, e gostar, e consumir. Porque se a pessoa nem sabe se existe, como é que vai assistir?”, disse.

Quando o tema passa pelo sucesso internacional recente do cinema brasileiro, com Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto ganhando projeção global, Karine afirmou que o que une esses títulos não é uma fórmula de mercado, mas o fato de falarem diretamente do Brasil. São filmes que “olham para dentro da nossa história”, cada um com uma linguagem distinta, mas profundamente autoral. Ela fez questão de frisar que não foram obras pensadas para o sucesso de público, mas para sustentar discussões necessárias. 

O reconhecimento internacional, nesse caso, aparece como consequência de um processo que envolveu investimento, dignidade de trabalho e condições reais de produção. Karine lembra que “nenhuma indústria avança sem investimento”. Segundo a atriz, esses dois casos são um sinal claro de que é possível manter uma indústria com voz própria, soberania imaginativa e capacidade real de gerar renda, empregos e circulação econômica, além do orgulho simbólico que esse reconhecimento desperta.

Movimento de retorno

A chamada validação estrangeira foi observada por ela de maneira muito própria. Karine reconheceu que grande parte da população brasileira ainda não tem acesso pleno ao cinema nacional e que, muitas vezes, o contato com filmes brasileiros acontece de forma precária, pela televisão, com cortes e intervalos. Nesse sentido, ela considera positivo que prêmios internacionais e indicações ao Oscar despertem curiosidade. Mesmo que esse reconhecimento venha de fora, ele pode funcionar como um gatilho para que o público queira conhecer, entender e assistir ao que é produzido no país. 

Para a atriz, há algo de simbólico e potente nesse movimento de retorno, quando uma obra profundamente brasileira circula por canais historicamente dominados por outras culturas e volta ao país como objeto de desejo e curiosidade. “É uma coisa que está sendo imposta pra gente há muito tempo, mas sempre através da cultura deles. Quando a gente pega uma coisa nossa, que é tão brasileira, que é tão autêntica e chega pra gente através desse canal, é lindo. Eu acho maravilhoso.”, explicou.

Ao comentar especificamente o filme de Kleber Mendonça Filho, Karine destacou o caráter radical da narrativa. Em um contexto em que o mercado insiste em roteiros explicativos e reiterativos, pensados para um espectador disperso, o filme aposta no oposto. ”O Agente Secreto é um filme que tem uma narrativa completamente instigante, provocativa, que precisa contar com você para criar significado”, disse. O fato de um filme com esse perfil alcançar sucesso de público e reconhecimento internacional, para ela, carrega um recado claro. “A nossa chance de fazer sucesso, de bombar, de criar uma indústria é ser autêntico e ter soberania imaginativa, porque a gente manda bem!”, finalizou

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