Eu Me Importo

Leões sem cordeiros

O mal do esperto é achar que ele é o único, ou o mais esperto de todos. É bom abrir um texto sobre Eu Me Importo com essa máxima, que fala sobre os lobos que vão eternamente comer outros lobos, na ficção principalmente. Dirigido pelo jovem J. Blakeson, que vem do ultra fracasso A 5a. Onda, o filme acaba de aportar na Netflix como um petardo de diversão e falta de vergonha na cara, daqueles filmes feitos para não simpatizar com ninguém e embarcar nesse passatempo, observando até onde vai a coragem, a cara de pau e a ousadia de pessoas sem limites; diz se isso não é uma dose de endorfina bem culposa das mais eficazes?

O primeiro conselho é se deixar levar, e não ficar de olho e ouvidos grudados na procura de lógica. Esse é o tipo de filme cuja suspensão da descrença precisa ser acionada desde o início para que inúmeras situações não sejam, digamos, “percebidas”. Inúmeros situações definitivas são impedidas de acontecer, alguns becos sem saída magicamente tem alçapões revelados, porque o roteiro precisa deles para continuar seguindo – é típico de filmes de golpe como esse, cujos plots são revelados a conta gotas, que suas intenções sejam parcialmente retidas e as informações não cheguem por inteiro. Cobrar o que faz parte do jogo narrativo é uma forma de revelar a mágica antes do truque acontecer.

Basicamente é um jogo moral sobre pessoas amorais. Muitas. Todas, praticamente. Como bom entretenimento, o filme não se encarcera e trata de analisar esquemas lucrativos de corrupção que muito devem existir por aí, que priva pessoas sãs de suas capacidades e liberdades, e uma quadrilha com diversos tentáculos acaba por usurpar continuamente cidadãos e suas famílias em troca de uma pseudo atenção. É lógico que no meio do esquema acabam entrando elementos fantasiosos que elevam o potencial danoso às vítimas, mas o filme, que não julga seus personagens,os coloca em constantes encruzilhadas para que suas barreiras sejam testadas.

Se o filme começa quase como um conto de horror social, a entrada em cena do personagem de Peter Dinklage libera ao filme descargas constantes de fantasia, que acaba por tirar do filme um registro de tensão e impunidade e acaba inserindo um jogo que se assemelha a um passeio por um parque de diversões, cheio de altos e baixos que levam o espectador a refletir menos e se divertir muito mais. O filme acaba estacionando neste lugar, e compreendemos então que sua função não era necessariamente gerar um debate sobre crimes e ética, mas conduzir o espectador a uma montanha russa de adrenalina aparentemente inesgotável.

A longa duração acaba por fazer Eu Me Importo acabar rendendo mais do que o necessário para a sessão, crescida além da conta. Mas com um elenco de primeira a sua disposição (além de Dinklage, Dianne Wiest, Macon Blair, e a protagonista), o filme acaba escorregando bem a contento. Com um tipo inesquecível como Marla Grayson nas mãos, Rosamund Pike foi indicada ao Globo de Ouro e desfila seu habitual talento por uma zona muito arriscada entre o deboche e a sátira, sem perder a humanidade, e acaba se tornando o grande alicerce de um filme que, apesar da mensagem aguda, quer divertir o espectador.

Com uma proposta muito clara e direta, sem floreios muito longos a respeito de seus mistérios, apenas o suficiente para manter o público preso, não importa muito se o final de Eu Me Importo resvala em certa obviedade, inclusive em seu julgamento. Blakeson (que também é o roteirista) encerra sua parábola exatamente como se esperava e não há qualquer problema com isso, porque há muita honestidade em sua proposta, e uma vontade imensa de entreter quem embarcar na jornada de duas horas, sem indigência mas também sem excesso de sofisticação; um passatempo acima da média.

Um grande momento
Grayson e seu algoz, frente a frente pela primeira vez

Fotos: Seacia Pavao

Ver “Eu Me Importo” na Netflix