Crítica | Streaming e VoD

Observadores

Olhar de fora

(The Voyeurs, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Michael Mohan
  • Roteiro: Michael Mohan
  • Elenco: Sydney Sweeney, Justice Smith, Ben Hardy, Natasha Liu Bordizzo, King So, Cameo Adele, Jean Yoon, Cait Alexander
  • Duração: 120 minutos

Os primeiros 5 minutos de Observadores são instigantes visualmente, com uma abertura bem pensada ao som de uma versão de “Eyes without a face” na voz de Angel Olsen, melancólica e apropriada com o que o que filme trará pro centro de discussão. Uma vez apresentado seu quadro geral, ainda que sua questão se ressignifique com o plot twist do final, o filme alimenta por uma hora e meia uma trama que glorifica machismos, coloca personagens femininos em papéis de desconfortável subjugo, e abraça uma tentativa muito equivocada de vitimizar seu olhar negativo sobre homens, mulheres, e por fim, a sociedade de consumo do outro.

Somos mercadoria de nós mesmos, é verdade, mas promover elementos sociopatas e até mesmo uma pitada de misantropia para provar seu ponto, é uma atitude de procedência duvidosa. O filme persegue uma moral fácil de defender, uma cutucada sobre os hábitos sociais hoje, que tanto ganharam em modernidade quanto perderam em qualidade de vida. Questão rapidamente posta, o filme tenta ampliar esse ponto de vista através de choques de gratuidades e não com um aprofundado (imagética ou narrativamente) conhecimento da narrativa para com seus personagens, tratados como instrumentos cobaias, prontos para disparar diálogos vazios e exploratórios.

Do início aparentemente promissor, rapidamente chegamos a uma versão moderna daquele infeliz Invasão de Privacidade, produção malfadada dos anos 1990 que ajudou a enterrar a carreira do promissor Joe Eszterhas, de Instinto Selvagem e Showgirls. A discussão e a moral da história é exatamente a mesma – espionar os outros é feio – e o filme tem a insipidez que os piores produtos da época tinham, incluindo essa mania muito reprovável de tentar mudar o discurso apresentado através de um fim inesperado, como se tudo que tivesse sido produzido antes, sua intencionalidade, pudesse ser apagada em nome de uma surpresa.

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Observadores
© Bertrand Calmeau

A verdade é que o material apresentado, se descolado a tal “nova versão dos fatos”, não passa de um melodrama sem conteúdo que força a barra a todo tempo para provar sua tese. Em nome das suas questões, o filme encaixa seus personagens em situações apressadas, sem apresentar qualquer credibilidade a um material que já apresenta muitos desacertos narrativos. Ainda que seu casal de protagonista seja carismático, não há como atribuir coerência a um roteiro que só está interessado em construir sua “cama de gato”.Michael Mohan, diretor e roteirista, faz um pacote super vistoso para um conteúdo de gosto duvidoso.

Toda a estética do filme soa como um comercial de imobiliária, ou de cartão de crédito, ou de qualquer outra coisa publicitária barata. E nem mesmo seu visual consegue manter interesse por muito tempo, já que rapidamente tudo parece repetido, igual. Cenas de sexo pouco inspiradas, mesmo elas abusando de um olhar machista, com o tradicional desfile de corpos femininos nus, somente. Todos os ambientes parecem limpos demais e assépticos, parecendo tudo sem personalidade, uma característica que perpassa todo o filme. Ao fim da jornada, pouco pode ser salvo da experiência.

E pensar que a ideia, lá do argumento, a respeito dos múltiplos olhares que lançamos nos dias de hoje, como testemunhas de algo, como observadores passivos, como espectadores da vida alheia, poderia muito bem conversar com a própria ideia do cinema, e resistir em um produto que fosse mais hábil em suas construções, dramáticas ou imagéticas. Na falta de apuro generalizado, resta essa estreia do Amazon Prime Video, que tem uma aparência chamativa, mas cujo conteúdo não faz jus ao que seu pacote frondoso tenta enganar.

Um grande momento
Os créditos de abertura

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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