Crítica | Festival

Golpe 53

(Coup 53, GBR, IRI, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Taghi Amirani
  • Roteiro: Taghi Amirani, Walter Murch
  • Elenco: Ralph Fiennes
  • Duração: 120 minutos
  • Nota:

Um filme que começa com uma palestra sobre a dificuldade de fazer aquele filme. Taghi Amirani mistura seu tema a esse mergulho por trás da produção para formatar o documentário Golpe 53. Começa em um TED Talks, apresenta os personagens principais e descreve sua busca de mais de anos por uma história perdida. Ele é Amirani e quer falar do que aconteceu em seu país antes da revolução antixá de 1979, que transformou o Irã em uma república islâmica teocrática comandada pelo aiatolá Khomeini. Sem desvencilhar as duas coisas, volta aos anos 1953, à primeira eleição democrática do país asiático, para falar da interferência dos Estados Unidos e do Reino Unido no Golpe Mordad 28, com a deposição de Mohammed Mossadegh e o retorno de Reza Pahlavi ao poder.

O filme de Amirani não tem nenhum pudor em mostrar a ligação pessoal com o objeto investigado. Iraniano, o diretor revive seu passado e se sente na obrigação de contar aquela história. O formato não foge muito à regra dos documentários investigativos, com viagens, buscas, imagens de arquivo e muitas entrevistas. Mas, mesmo repetindo elementos e estilo, se encontra no ritmo e, com uma boa história – elas são fundamentais quando estamos vendo algo que já vimos da mesma maneira antes -, cria uma trama de duas horas que vai se reconstruindo em detalhes.

Golpe 53

A intromissão estadunidense e britânica não é nenhuma novidade no mundo. Agentes da CIA e do MI6 aparecem em relatórios de golpes de estado em países de vários continentes, embora nem sempre se conheça a verdadeira força intervencionista empregada e não haja uma assunção dessa interferência. Não precisamos ir muito longe para perceber isso, já que também passamos pela mesma situação aqui no Brasil. O caso do Irã é mais complexo porque, além de ter sua história hostilmente alterada pelos dois países, seu nome nunca deixou de estar nas bocas dos Estados Unidos. Agora, por exemplo, o alvo de Trump que ensaia uma nova guerra para que sua popularidade cresça novamente.

Amirani já tinha uma história longa demais para contar e não chega tão longe em sua investigação. Não é sua intenção. Porém, alcança o ponto primigênio quando retorna àquele ano. Embora se apoie bastante em entrevistas engessadas, traça um caminho fácil para quem acompanha a jornada cheia de reviravoltas, desencontros e achados importantes, ilustrando-a com muitas imagens de arquivo, animações e até mesmo reencenações. Aliás, um dos pontos interessantes de Golpe 53 é o modo como ele, diferente de outros de remontagem, como 1982, consegue se apropriar de imagens anteriormente criadas (também para a televisão) e moldá-las a novas, alterando seu dinamismo.

Golpe 53

Entre suas muitas investidas, está a transformação do documentário após encontrar provas que complementam outras e recriar aquilo que foi conscientemente apagado. No caso específico da Ajax, enquanto os EUA assumiram sua participação na derrubada do primeiro-ministro, o Reino Unido seguiu negando-a. Logo ele, o mais interessado na ação após as primeiras medidas do governo de Mossadegh. Mais do que buscar imagens e registros, colher depoimentos ao vivo e por telefone, Amirani quer provar o que aconteceu, preenchendo os campos em branco, dando corpo e voz àquilo que deixou de existir. Partindo de transcrições recém-descobertas, o diretor reconstrói o fato que corrobora a negada participação britânica no golpe.

Golpe 53 levou 11 anos para ser concluído. Claramente, é um filme que está mais interessado em contar uma história do que em criar algum tipo de linguagem, embora trabalhe bem com os elementos, como quando leva a pesquisadora para a sala de edição e a mostra parte do próprio documentário; ou quando filma alguns dos entrevistado com duas câmeras, sendo uma delas a de seu celular; ou quando resolve personalizar o espião Norman Darbyshire. Em sua investigação, resgata, mostra e flerta com o suspense dos bons filmes de espionagem, além de trazer mais uma história dentre as tantas outras de destruição, manipulação e perda de identidade nacional causada pelos mesmos países de sempre.

Um grande momento
Norman Darbyshire.

[25º É Tudo Verdade]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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