Boots Riley já deixou claro em filmes anteriores que não tem qualquer interesse em realismo domesticado. Em I Love Boosters, porém, o diretor leva essa lógica a um novo limite, criando uma comédia delirante sobre consumo, trabalho, amizade e sobrevivência em que roupas roubadas, demônios sedutores, absurdismo visual e luta de classes coexistem como parte da mesma engrenagem. Durante coletiva virtual, Riley e o elenco falaram sobre o processo de construção do longa, que mistura humor físico, comentário social e um senso de comunidade raro no cinema americano contemporâneo.
Antes mesmo da conversa começar, Boots corrigiu a mediadora sobre o título do filme. “Começa como I Love Boosters, mas termina como We Love Boosters.” A frase parecia piada, mas resumia o eixo central da narrativa. O diretor explicou que a ideia surgiu há quase vinte anos, a partir de uma música homônima da banda The Coup. O filme não adapta a canção diretamente, mas nasce do mesmo impulso político e visual. “Comecei pensando numa montanha gigantesca de roupas”, contou. “As coisas são feitas de tempo, de trabalho, de pessoas.”
A partir dessa imagem, Riley construiu Corvette, personagem interpretada por Keke Palmer, e um universo onde o consumo aparece ao mesmo tempo como desejo, armadilha e mecanismo de sobrevivência. A atriz contou que o roteiro parecia impossível de realizar quando o leu pela primeira vez. “Eu pensava: como ele vai fazer isso funcionar?” O resultado final, segundo ela, acabou superando qualquer expectativa. “O filme ficou melhor do que eu imaginava porque ele é completamente coletivo. O roteiro é só uma peça. Tem o elenco, figurino, maquiagem, direção de arte, fotografia. Todo mundo constrói junto.”
Força feminina
Esse espírito coletivo atravessou marcou a entrevista. O elenco repetiu várias vezes que o ambiente no set parecia menos uma produção industrial e mais uma reunião de artistas interessados em experimentar. Eiza González disse que raramente havia encontrado personagens femininas escritas com tanta convicção sobre si mesmas. “As mulheres daqui não estão pedindo desculpas por existir.” Para ela, sua Violeta carrega algo profundamente ligado à experiência latina e à sensação constante de apagamento. “Existe uma necessidade de ser ouvida, de dizer: olha para mim, escuta o que tenho para dizer.”
Poppy Liu conectou a personagem Jianhu à própria trajetória política. A atriz explicou que a personagem foi inspirada numa revolucionária chinesa da dinastia Qing executada por lutar contra práticas patriarcais. “Você vê ela se radicalizando aos poucos”, disse. “Primeiro percebe as injustiças ao redor, depois entende que existe um sistema inteiro sustentando aquilo.” Ela afirmou que o filme conversa diretamente com a experiência de muitas pessoas racializadas que passam a enxergar como estruturas de opressão se conectam. “Depois que você vê isso, não consegue mais desver.”
A relação entre ancestralidade e identidade também atravessou seu depoimento. Liu comentou que quase toda sua família permanece na China e que interpretar uma personagem profundamente chinesa teve peso emocional especial. “Ela chega aos Estados Unidos pela primeira vez no filme. Eu sinto essa ligação muito forte com minhas origens.”
Vinda de uma experiência pesada filmando a série Welcome to Derry, Taylour Paige contou que buscava algo mais leve e aceitou participar imediatamente depois de ler o roteiro, embora I Love Boosters rapidamente revele temas bastante sombrios. Para ela, “O filme faz uma coisa muito bonita. Primeiro ele captura você pela diversão e depois começa a falar seriamente sobre o que significa existir no mundo.” A atriz destacou também a sensação de estar cercada por artistas que considera transformadores dentro da indústria. “Parecia que eu estava trabalhando com pessoas que realmente querem mudar alguma coisa.”
Irmandade
Ackie disse que enxerga o longa como uma reflexão sobre comunidade. “Quando pensamos em mudar o mundo, imaginamos sempre grandes revoluções. Mas o filme fala de pequenas ações.” Para ela, a irmandade entre as personagens funciona como núcleo político da narrativa. “Tudo começa pequeno. Uma amizade, uma vizinhança, uma comunidade. Depois isso cresce.” Ao falar sobre a personagem Corvette, comentou como ela descobre, ao longo da história, que não existe separada das pessoas ao redor dela. “O filme pergunta constantemente: o que você faz com aquilo que conquista?”
Palmer aprofundou essa ideia ao falar da relação entre Corvette e Sade. Segundo a atriz, as duas personagens representam formas diferentes de resistência. “Corvette quer explodir tudo. Já Sade acredita que também existe rebeldia na alegria.” Para ela, o longa se recusa a oferecer respostas fáceis ou utopias simplificadas. “A vida é uma tragicomédia. Existe crueldade, mas também existe prazer, amizade, afeto.” Palmer afirmou que o filme lembra que sobreviver também pode ser um ato político. “Às vezes a revolução é simplesmente continuar amando seus filhos, seus amigos e tentando viver.”
Criatividade, moda e arte
Boa parte da coletiva acabou dominada pelo impacto visual do filme. Boots Riley fez questão de elogiar o trabalho do diretor de arte Christopher Glass e da figurinista Shirley Kurata, responsáveis por criar um universo saturado de texturas, cores e exageros. “Você conversava uma coisa e ela aparecia exatamente daquele jeito no set.” O elenco lembrou especialmente das sequências envolvendo roupas gigantescas e figurinos esculturais. Ackie contou que a cena em que aparece presa dentro de um enorme traje rosa foi filmada logo no primeiro dia. “Aquilo tudo parecia um transe.” Palmer completou dizendo que a própria roupa fazia metade da atuação. “Você já anda estranho, parece ridículo, mas leva aquilo totalmente a sério. E aí a cena funciona.”
Embora o filme abrace o absurdo visual e narrativo, Boots Riley insistiu que tudo nasce de algo extremamente concreto. Questionado sobre o uso frequente do surrealismo em seus trabalhos, o diretor explicou que não se considera comprometido com nenhum gênero específico. “Eu só quero que o público sinta o que os personagens estão sentindo.” Riley comparou seu processo ao funcionamento da música. “A batida faz você sentir antes de entender.” Segundo ele, o absurdo apenas acelera contradições que já existem no cotidiano.
O clima de improvisação e liberdade criativa apareceu várias vezes nas respostas. Riley afirmou que muitos momentos foram resolvidos em apenas três tomadas porque o elenco chegava pronto para experimentar. “Ninguém ali estava tentando só fazer um trabalho. Todo mundo queria construir alguma coisa.” LaKeith Stanfield chamou atenção para o efeito dessa energia sobre toda a equipe. “Quando existe criatividade real, todo mundo trabalha feliz.” O ator disse que filmes como esse precisam continuar existindo justamente porque produzem ambientes onde artistas conseguem correr riscos.
Stanfield também virou um dos centros da coletiva ao comentar seu personagem, descrito inicialmente de forma bem menos metafórica. “Boots basicamente me ligou dizendo: ‘você vai interpretar um demônio que suga a alma das mulheres pela vagina’.” A sala explodiu em gargalhadas. Depois da brincadeira, porém, o ator explicou que enxergou o personagem como representação de relações sedutoras, destrutivas e emocionalmente predatórias. “Queria mostrar alguém que parece belo por fora, mas carrega algo profundamente trágico dentro.”
O sotaque excêntrico criado por ele surgiu de referências improváveis que iam de Drácula ao Conde Contagem da Vila Sésamo. “Pensei em vampiros, depois em personagens infantis e aquilo acabou voltando como um disfarce sedutor.” Keke Palmer entrou na brincadeira imediatamente. “Eu já conheci esse homem na vida real várias vezes.”
Luta de classes e cinema
O cineasta afirmou que muitos filmes sobre trabalho simplesmente ignoram luta de classes, mesmo quando ela está acontecendo diante dos personagens. “As pessoas precisaram colocar viseira para fingir que isso não existe.” Para ele, I Love Boosters acaba sendo mais real justamente por assumir essas tensões frontalmente. “O filme acredita que mudança coletiva é possível.”
A reta final da coletiva acabou virando também uma discussão sobre financiamento e espaço para produções autorais dentro da indústria. Palmer comentou que filmes como aquele exigem enorme esforço coletivo para sobreviver com orçamentos limitados. “Imaginem o que seria possível fazer se houvesse mais apoio.” Eiza González concordou imediatamente. “Com mais dinheiro.” O elenco lembrou que toda a produção foi marcada por um ambiente criativo raro, com música tocando nos trailers, equipes trabalhando em sintonia e sensação permanente de descoberta.
Questionado sobre o potencial do filme virar cult, Boots Riley disse esperar que sua obra um dia pareça datada por um motivo positivo. “Espero que exista uma mudança tão profunda na sociedade que as pessoas assistam a esses filmes e perguntem por que aquilo precisava ser discutido.” Antes do encerramento, LaKeith Stanfield respondeu diretamente ao comentário. “Se continuarem apagando a história das escolas e tentando esconder a realidade, ninguém vai esquecer por que filmes assim precisaram existir.”
I Love Boosters estreia no Brasil em outubro de 2026