Toda estrutura de poder produz seus herdeiros. Em I Think About Killing You, de Ran Ran Wang, a figura mais interessante não é a protagonista, uma atleta que fantasia matar sua treinadora. Quem chama a atenção é a própria treinadora, uma mulher que construiu sua autoridade reproduzindo métodos que durante décadas foram celebrados quando praticados por homens.
No curta-metragem, Dani é a capitã de uma equipe universitária de remo e convive diariamente com humilhações, pressão psicológica e exigências que ultrapassam qualquer limite. O que está por trás disso, porém, é a lógica que sustenta aquele ambiente. Uma lógica que não reconhece um poder abusivo e cuja referência está em uma tradição de liderança muito anterior.
Em diversos momentos, as justificativas da treinadora retornam ao mesmo ponto: técnicos homens fizeram o mesmo, alguns fizeram muito pior. É um argumento que não funciona coo revelação e não como absolvição. A personagem mede suas ações a partir de um modelo patriarcal estabelecido e que continua servindo como parâmetro de sucesso. Sua autoridade se apoia numa estrutura que naturalizou a agressividade como ferramenta pedagógica e transformou sofrimento em sinal de excelência.
Nessa reprodução, incabível, a treinadora ocupa uma posição historicamente negada às mulheres, mas chega a ela incorporando códigos que exigem o apagamento de qualquer diferença. Sua presença não altera a lógica do sistema. Pelo contrário, passa a operar dentro dele, reforçando os mecanismos machistas que ajudaram a construí-lo.
Ran Ran Wang destaca os efeitos concretos desse modelo sobre as atletas e, de certa maneira, dá vazão à raiva acumulada por Dani, mas também observa como as estruturas de poder sobrevivem através daqueles que as reproduzem. I Think About Killing You transforma uma fantasia de vingança em uma reflexão amarga sobre herança, autoridade e patriarcado.
Um grande momento
A primeira reação