Crítica | Festival

Magazine Dreams

Animal ferido

Em Magazine Dreams, Elijah Bynum acompanha Killian Maddox, um fisiculturista amador que trabalha em supermercado, cuida do avô e organiza a própria existência em torno de um ideal de grandeza que cabe todinho em uma capa de revista. O modo como o diretor constrói a empatia é inteligente. Killian explode, assusta, humilha, ameaça e, ainda assim, a câmera insiste em ficar perto dele quando seria mais confortável recuar. É um filme que entende que a solidão daquele homem não está apenas no texto, mas nos intervalos, na rigidez do corpo, na dificuldade de sustentar qualquer conversa que não seja sobre músculo, disciplina e glória. 

Aos poucos, o que poderia virar somente um estudo sobre masculinidade adoecida ganha um peso mais doloroso: começamos a olhar para Killian como alguém que desaprendeu a existir entre os outros. O sonho do título deixa de soar grandioso e passa a ter a pequenez trágica de quem quer apenas ser visto.

Jonathan Majors, incrível no papel, entende esse esvaziamento do ser. O mais forte desta interpretação não está na transformação física – embora ela seja absurda –, mas na maneira como ele embaralha ameaça e fragilidade dentro de si. Killian entra em cena como um corpo talhado para intimidar, só que os olhos denunciam outra coisa o tempo todo. Há uma fome de afeto, de validação, de escuta, que nunca sabe como aparecer. O ator, em uma interpretação envolve porque recusa a caricatura do brutamontes e também foge da piedade fácil, trabalha a insuficiência com uma precisão impressionante. Quando o personagem sorri, parece pedir licença ao mundo; quando explode, parece estar reagindo a uma dor antiga demais para ser explicada. Assistimos a alguém que se move como uma arma e sofre como uma criança perdida.

O envolvimento também vem da mise-en-scène. Adam Arkapaw filma a musculatura de Killian como terra devastada, um território que ele tenta dominar enquanto vai sendo consumido por ele. O fisiculturismo, em Magazine Dreams, carrega uma beleza triste. Cada repetição, cada refeição medida, cada pose diante do espelho de competição tem mais a ver com desespero do que com vaidade. O corpo surge como projeto de eternidade para alguém esmagado pela sensação de apagamento. São dois extremos: quando a sociedade olha para Killian, enxerga desajuste; quando ele olha para si mesmo, encontra monumento. Entre uma coisa e outra, o filme encontra sua vibração incômoda.

Há ecos visíveis de um certo cinema americano sobre homens apartados do mundo, como Travis Bickle, mas o que interessa mais aqui é a maneira como Bynum transforma o fisiculturismo em religião privada, com seus rituais, suas penitências e sua promessa de transcendência. Killian escreve cartas para um ídolo do esporte, imagina reconhecimento, cultiva a própria dor como método. Magazine Dreams explora muito bem como a cultura da performance oferece um altar perfeito para quem já vive quebrado por dentro. Nesse sentido, fala menos sobre competição do que sobre devoção. Killian treina para ser amado, para virar imagem, para que alguém, enfim, lhe devolva algum contorno humano. 

Isso não quer dizer que o longa seja irrepreensível. Em alguns momentos, Bynum pesa a mão e exagera na tensão, expondo um certo medo de perder o espectador por um segundo. A estrutura flerta com o excesso, alguns caminhos soam insistentes, e há sequências em que a espiral de sofrimento já disse o que precisava dizer.

Ainda assim, Magazine Dreams fica. Fica porque entende que o horror de Killian não vem só do que ele pode fazer, mas do quanto desejamos que alguém apareça antes do pior. Fica porque Jonathan Majors encontra nesse homem uma mistura rara de brutalidade e abandono, fazendo com que cada gesto pareça nascer de uma batalha travada no escuro. E fica, sobretudo, porque nos pega num ponto delicado: o cinema às vezes nos faz amar personagens por sua doçura; aqui, ele nos arrasta para perto de alguém quase arruinado, que pede socorro com o corpo inteiro, mesmo quando tudo nele parece ter sido treinado para nunca admitir necessidade. É um filme duro, por vezes sufocante, mas que sabe muito bem onde enfiar a faca. No lugar exato em que pena, medo e afeto se instalam.

Um grande momento
O encontro com Jessie

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Assinar
Notificar
guest

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

0 Comentários
Mais novo
Mais antigo Mais votados
Inline Feedbacks
Ver comentário
Botão Voltar ao topo