Crítica | Festival

O Profeta

Fé ou fama?

(O Profeta, MOZ, CAT, RSA, 2026)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Ique Langa
  • Roteiro: Ique Langa
  • Elenco: Admiro De Laura Munguambe, Nora Matavel, Alexandre Masnado Coana, Venâncio Jaime Langa, Armando José Macave, Yara Bonga
  • Duração: 94 minutos

Um homem disposto a tudo para ser ouvido. É isso que está por trás de O Profeta. O pastor Hélder não é exatamente um líder religioso em crise de fé, sua insatisfação é com o espaço que ocupa, com a pouca relevância que tem. Sua igreja é pequena, sua influência parece insuficiente e seus sermões são fracos e de pouco alcance. Deslocado no espaço neopentecostal, é na feitiçaria e nas práticas espirituais tradicionais que ele encontra um caminho possível para ampliar esse poder. Sem querer usar modelos ocidentais, mas já fazendo isso: uma narrativa fáustica com seus atalhos? Temos.

Ique Langa acompanha a transformação de seu personagem sem julgamento e sem pressa. O interesse não está em discutir qual crença é mais legítima ou verdadeira. O que está na tela é a relação entre espiritualidade e desejo, entre devoção e vaidade, entre a necessidade de acreditar e a vontade de ocupar um lugar central na vida dos outros. E o fato de Hélder traçar o seu caminho com convicção é o que torna seu percurso ainda mais perturbador.

Há momentos em que O Profeta observa o protagonista como alguém seduzido pela própria imagem. Como em qualquer pessoa que encontra a fama, o crescimento da influência produz uma espécie de embriaguez, e de adição. Cada conquista pede outra e cada demonstração de poder abre espaço para uma ambição maior. Nesse movimento, à sombra do folclore alemão e do “tecido fáustico”, sempre – e em qualquer lugar – pode surgir um Fausto que caiba em uma nova história, por mais distante que ela esteja dessa origem.

Numa reconfiguração das encruzilhadas, entre Mefistófiles e Legba, os caminhos e as questões que surgem a partir de então levam a um lugar conhecido. A diferença está em como Langa arruma isso. Filmado em preto e branco, o longa aposta em uma encenação austera e contemplativa. Optando por um ritmo mais lento e tentando criar uma experiência de observação prolongada, a montagem talvez atrapalhe a aproximação mais intensa do drama. Em vários momentos, O Profeta aposta na duração dos planos para que se crie o envolvimento, mas nem sempre consegue chegar ao efeito desejado.

Porém, para além de suas escolhas estéticas, O Profeta mantém o interesse ao evitar respostas fáceis. O que fica não é uma reflexão sobre fé em seu sentido mais imediato, mas sobre aquilo que acontece quando a crença passa a se misturar com o desejo. Hélder crê, sim, do início ao fim. O problema é quando acreditar deixa de ser suficiente.

Um grande momento
O primeiro encontro com a feiticeira.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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