Os Escravos de Jó

(Os Escravos de Jó, BRA, 2020)
Drama
Direção: Rosemberg Cariry
Elenco: Daniel Passi, Daniela Jesus, Antônio Pitanga, Everaldo Pontes, Sílvia Buarque, Rocco Pitanga, Romi Soares, Hadi Bakkour, Bruna Chiaradia
Roteiro: Rosemberg Cariry
Duração: 96 min.
Nota: 4

Biblicamente, Jó ficou conhecido por sua paciência. Objeto de uma aposta entre Deus e Diabo, perdeu seus filhos e sua riqueza, mas recuperou tudo em dobro. Escravos nunca se soube se tivera. O nome foi apropriado em uma cantiga de roda brasileira que data do período colonial e atribuía ao personagem tais escravos. O novo filme de Rosemberg Cariry cria uma outra história a partir do mito.

Partindo da premissa mais básica sofocliana, o autoconhecimento, e filmado em Ouro Preto, o longa vai trabalhando com as origens, do país, dos povos, da religião, da cultura. Entre várias histórias satélites, um documentarista judeu que fugiu de algum mal-feito no Ceará se apaixona por uma imigrante palestina.

Muita informação vai tomando a tela em pouco tempo e o filme se infla rapidamente, fazendo com que explicações didáticas sejam necessárias. O cinema intuitivo e dedutivo de Rosemberg precisa dar espaço a personagens como os de Elifas e Jérèmie, que tentam sanar a falta de tempo para o aprofundamento em cada história.

Embora o filme tenha aqui e ali alguns lampejos de criatividade, essa falta de parcimônia, de seleção, pesa. O tentar falar sobre tantas coisas faz com que tantos caminhos abertos fiquem inconclusos ou ganhem menos atenção. Há, por exemplo, um debate sobre a transformação e apropriação do barroco interessantíssimo, que Rosemberg poderia ter feito muito mais gráfico, apenas passageiro.

Escravos de Jó parte em busca de origens e quer falar da exclusão, preconceitos, as grandes mazelas da humanidade. Traz a religião ao debate, fala da escravidão no Brasil e do racismo, expõe – de forma até gratuita ao resgatar imagens de arquivo – o holocausto. Em um mesmo personagem apresenta a contradição daquele que é perseguido e que persegue, mas é tanta coisa, e tudo tão artificial, que não é possível prestar atenção em tudo que está sendo dito.

E há equívocos inescusáveis. Por que filmar Yasmina de maneira tão objetificada quando ela está sozinha no quarto? Uma personagem que sequer tira o Al-Amira para que ele veja seus cabelos não mandaria aquelas fotos sem qualquer objetivo a não ser possibilitar aquelas cenas.

Outro incômodo está na abordagem do conflito israelo-palestino, em uma posição que o distanciamento pode tornar um tanto perigosa, justamente pela generalização sionista tão evidente no personagem vivido por Everaldo Pontes. Assim como podem ser genéricos os personagens de Yasmina e Kamal, como os representantes do outro lado do conflito, numa tentativa de validação de um discurso distante e desconhecido, ainda que se acredite que um lado é oprimido pelo outro.

Porém, pior do que isso é voltar para uma situação própria, a nossa. Em uma cena específica, a situação de guerra lá no Oriente Médio é comparada com o extermínio de jovens negros no Brasil, como se a situação “pós-golpe” tivesse piorado muito. Ora, jovens negros são mortos no Brasil desde que o primeiro navio negreiro aportou nessas praias e nunca pararam de ser mortos em nenhum governo. Além disso, não são situações comparáveis.

Voltando a Sófocles e a Édipo, que também também está no filme, a jornada de autoconhecimento foi se procurar longe demais e acabou se desviando do caminho. Não que seja desinteressante se buscar em todos esses lugares, mas Escravos de Jó não deu conta de todos eles.

Um Grande Momento:
A conversa de Antônio e Catarina.

[23ª Mostra de Tiradentes]

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