Crítica | Festival

Pebbles

Longa caminhada até si

(Koozhangal, IND, 2021)

  • Gênero: Drama
  • Direção: P.S. Vinothraj
  • Roteiro: P.S. Vinothraj
  • Elenco: Chellapandi, Karuththadaiyaan
  • Duração: 74 minutos
  • Nota:

Em zona de pobreza extrema na Índia contemporânea, um périplo de pai e filho por uma região desértica pode reverberar de maneiras diversas. Em determinado momento, homem adulto e homem criança parecem disputar não apenas a atenção do espectador, mas disputar também o extracampo do filme, clamando por espaços em diferentes áreas. Esse é Pebbles, impressionante longa indiano que chega ao Festival de Roterdã emplacando uma versão imagética de um país longe do que acostumamos a ver, e com isso abrindo um leque não apenas de seus planos, mas principalmente ao redor de sua narrativa, que reimagina relações de afeto em meio ao desespero.

Pai e filho correm constantemente por entre imagens isoladas, quase pós-apocalípticas, reconfigurando as ideias de apocalipse para o ser humano hoje. Não qualquer ser humano, mas aquele que habita a mais rasteira camada da pirâmide social, cuja oportunidade nunca alcança um patamar aceitável. São eternamente figuras nômades, em busca de uma esperança forjada nos encontros sejam eles da ordem que forem. Ao mesmo tempo em que um refúgio de afeição é procurado, em olhares e súplicas, também há a certeza de que no acolhimento do pŕoximo, uma chama de humanidade possa voltar a tremular.

Pebbles

O diretor P. S. Vinothraj explora esse deserto sem fim por onde correm os personagens e se sucedem seus embates ampliando a temática do filme, ao incutir nos próprios a paisagem ressecada e solitária que filma. Todos parecem invariavelmente dedicados a tarefas prosaicas de sobrevivência, tenham ela exposição externa ou interna, e ainda que essas atividades só se qualifiquem como comuns para seu universo — não apenas há coragem de expor os sentimentos conflituosos entre pai e filho, também não se furta em exibir sequências absolutamente desoladoras de alimentação, onde o natural pra eles não se configura como tal em qualquer outro continente.

A diferença de idade entre pai e filho é suficientemente grande para tornar absurdas as acusações do mais velho. Aí entra grande parte da coragem do cineasta, ao confrontar seus protagonistas em torná-los oponentes no amor de uma figura em comum — a mãe, que não está no plano. Narrativamente rico, esse embate abre uma série de olhares a respeito de como nem na ausência absoluta de recursos, cabe uma folga aos desdobramentos psicológicos de sua produção, deixando claro que a natureza humana ainda está ampla de debates mesmo em ambientes onde suas buscas deveriam ser de desenvolvimento prático.

Pebbles

Assinada pela dupla Jeya Porthibon e Vignesh Kumulai, a fotografia de Pebbles nos remete a uma versão acelerada do que Nicolas Roeg apresenta em A Longa Caminhada, ainda que suas cores sejam de escolhas acertadamente estéreis. Falta intensidade proposital na paleta de cores do filme, nos semblantes e nas paisagens, porém sobra vibração e cadência na elaboração desses planos, que parece registrar aquela rotina de forma quase documental. Tendo consciência de que está no comando de uma ficção, o diretor embaralha essa impressão através da montagem de Ganesh Siva, que redimensiona essas paisagens com a agilidade quase de um cartoon.

Pebbles parece dizer ao espectador que essa jornada não tem fim, nem para seus personagens nem para seu espaço cênico; continuarão todos lá, ainda reféns de um sistema que retira as oportunidades de seus habitantes, mas não os resumindo a um caleidoscópio de dores físicas. Vinothraj os deixa livres para serem mais do que pessoas famintas e desesperadas por chances, mas principalmente não retira de plano algum as formas muito endurecidas de psicologizar as imagens.

Um grande momento
Refeição na fogueira

[International Film Festival Rotterdam 2021]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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