Um fim de semana de muita arte em Tiradentes

Foto: Leo Lara/Universo Produção

Não faltou arte no primeiro final de semana do 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Exibições de curtas e longas-metragens dividiram o espaço com atividades variadas, que incluíram debates, cortejo, performance audiovisual, teatro de rua, lançamentos de livros e show.

Cine-Tenda

O longa-metragem escolhido para abrir a segunda noite de festival no Cine-Tenda no sábado (24), foi o baiano Revoada, dirigido por José Umberto Dias. O filme, montado pelo diretor após uma longa batalha judicial, volta às histórias do cangaço. Em seguida foi a vez de A Batalha da Maria Antônia, de Renato Tapajós, sobre o famoso embate entre estudantes e a polícia, ocorrido em 1968 na Rua Maria Antônia, em São Paulo.

Para encerrar a noite, a sessão Bendita trouxe o longa-metragem As Fábulas Negras. Concebido pelo diretor Rodrigo Aragão, o coletivo de histórias de terror com personagens do folclore e de lendas urbanas, tem nomes importantes da cena atual. José Mojica Marins assina o episódio do Saci; Petter Baiestorf, o do Lobisomem e Joel Caetano, o da Loira do Banheiro. Os outros dois episódios, O Mostro do Esgoto e A Casa da Iara, foram assinados por Aragão.

Entre as exibições e após o último filme, apresentações artísticas aconteceram no lounge do Cine-Tenda. Na noite em que o terror tomou as telas, foi a vez do Bloco Os Caveiras, com intervenções e performances macabras. O coletivo #eufaçoamostra realizou a ação Repórteres Zumbis, onde, com vestimentas especiais, interagiam com o público presente.

No final da tarde de domingo (25) na Cine-Tenda, como parte da Mostra Autorias, houve exibição do último filme de Domingos Oliveira, Infância. Autobiográfico, o filme conta a história daquele momento na vida do cineasta e sua família, unida e dominada pela matriarca Dona Mocinha, vivida por Fernanda Montenegro.

Em seguida, agora na Mostra Transições, foi exibido o longa A Despedida, de Marcelo Galvão, com Nelson Xavier e Juliana Paes. Enquanto o longa anterior falava do começo, o filme de Galvão aborda do final da vida. Apesar da imagem ruim, com uma resolução inferior à necessária, o filme emocionou a plateia. Seguindo a programação e encerrando a noite na Cine-Tenda, o público assistiu ao belo e formal Obra, de Gregório Graziosi.

O encerramento, no lounge da Cine-Tenda, foi especial. O show da noite foi Caixa de Ódio, de Arrigo Barnabé, com interpretações modernas de clássicos de Lupicínio Rodrigues.

Outras telas

No domingo, as exibições de longas-metragens começaram no Cine-Teatro SESI, com a Mostra Sui Generis. O filme exibido foi Pingo D’Água, dirigido por Taciano Valério. Durante o fim de semana aconteceu uma mostra em homenagem à Dira Paes. No sábado foi o dia de Corisco e Dadá, de Rosemberg Cariry. No domingo, do longa-metragem Amarelo Manga, de Cláudio Assis.

Outras metragens

A programação de curtas-metragens também começou neste final de semana, com as mostras Cena Mineira e Panorama. Na primeira série da seleção destinada aos filmes do estado, uma ficção (Max Uber, de Andre Amparo), um documentário (Cantos da Terra Verde, de Gabriel Bilig) e um filme experimental (Sonho de Sara, de Sara não tem Nome e Gabraz).

A mostra panorama começou com os provocadores Estudo de Persistência, de Krefer, e Action Painting nº 1/nº 2, também de Krefer, em parceria com Turca. Apresentados em uma janela vertical, como em um celular e sem qualquer som, os dois filmes voltam a uma das atividades mais primordiais do ser humano, o sexo, para transmitir sua mensagem. O primeiro fala do exibicionismo, da falta de privacidade buscada por seus personagens e da relação com os aparelhos que possibilitam tudo isso hoje em dia. Já o segundo, mais artístico, remete à dor da criação artística, em uma metáfora tão interessante quanto angustiante.

Os curtas seguintes foram os femininos e feministas A Boneca e o Silêncio, dirigido por Carol Rodrigues, e Arianas, de Hylnara Anny Vidal. Ambos tratam de questões urgentes e importantes na vida das mulheres, sobre realidades em que entraves religiosos e morais e até mesmo o preconceito fazem com que o mundo pense ter direito sobre o corpo de uma pessoa, determinando o que deve fazer, viver e como se comportar. Para fechar a seleção, o belo e triste Sem Coração, sobre o cotidiano de uma cidade no litoral pernambucano, onde um jovem vai passar as férias com o primo.

A segunda série da Mostra Panorama trouxe, no domingo, curtas que, de forma geral, falavam sobre a relação do homem com sua realidade e o lugar que habita.

Com um desenho de som impressionante, Clave dos Pregões, de Paulo Nóbrega, fala sobre a realidade sonora de uma cidade. Javaporco, de Leandro das Neves e Will Domingos, e Canto de Outono, André Antônio, visualmente muito parecidos entre si, trazem a poesia para falar da percepção do homem em sua realidade.

Agreste, de Dellani Lima, é mais específico na inadequação espacial. Aqui, forçada por uma presença paterna. Para encerrar a seleção, Ruim É Ter que Trabalhar, de Lincoln Péricles é um documentário sobre as mudanças espaciais sofridas por um trabalhador na capital paulista com a Copa do Mundo de Futebol.

Cinema na rua

Ao cair da noite, a praça de Tiradentes também vira palco de exibição de filmes. No sábado, foram exibidos o curta documental Bracher Pintura & Permanência, dirigido por Blima Bracher. O longa Nervos de Aço, de Maurice Capovilla, completou a noite, porém a exibição teve vários problemas com o som e uma reexibição do filme foi marcada para o domingo, no final da noite.

Domingo, aliás, foi o dia de maior diversão no Mostra na Praça, com a exibição do longa-metragem O Dia do Galo. Contagiante, o filme empolgou a plateia de torcedores e admiradores do esporte, e fez reviver a emoção da final da Libertadores ganha pelo Atlético Mineiro.

Mostrinha

A criançada também se divertiu durante o final de semana. Além de uma praça cheia de atrações para os pequenos, o Cine-Tenda também dedicou uma programação exclusiva para eles. No sábado, pela manhã, foi exibido o longa-metragem O Menino no Espelho, de Guilherme Fiúza, com Mateus Solano e Regiane Alves no elenco. À tarde foi a vez de O Segredo dos Diamantes, dirigido por Helvécio Ratton, com Dira Paes, grande homenageada do evento.

No domingo foi a vez da co-produção brasileira e francesa, Amazônia, de Thierry Ragobert. O filme conta a história de um macaquinho de circo que sobrevive a um acidente de avião na floresta amazônica. À tarde, uma seleção de curtas-metragens animou a programação. Na seleção, O Filme de Carlinhos, de Henrique FIlho; Oxalá e a Criação do Mundo, de Denis Leroy; Ninja, de Marcelo Marão; As Aventuras de Minuano Kid, de Edison Rodrigues e Pedro Antoniutti, e Doce de Goiabada, de Fernanda Rocha.

Debates

O sábado, começou o dia debatendo o lugar do cinema nos dias de hoje. O crítico de cinema e curador da Mostra de Tiradentes Cleber Eduardo, o cineasta Felipe Bragança e o crítico e curador de curtas da mostra Francis Vogner dos Reis discutiram a mudança da relação com o cinema, as muitas novas janelas de exibição, a relação dos cineastas com os festivais e o mercado.

Os debates entre diretores, crítica e público começou no domingo (25), com conversas sobre os filmes exibidos na noite anterior na Cine-Tenda.

Outras artes

Desde a primeira edição da Mostra de Tiradentes acontece o cortejo da arte, que, saindo da Igreja do Rosário, percorre todas as ruas da pequena cidade histórica. Durante o cortejo, no meio da praça, acontece uma grande festa, com bonecões, palhaço, escola de samba e vários personagens infantis.

No domingo, foi a vez do teatro de rua. A Companhia Teatral ManiCômios apresentou o espetáculo A Fada, a Flor e a Princesa. Com formato de pequeno cortejo musical, as personagens chamam as crianças para adentrar no mundo da imaginação.

Para ler e ver

O domingo também foi o dia de lançamentos de livros e dvds. As obras lançadas foram: Cinecaulofilia, de Marcelo Ikeda; Cine Danúbio – Páginas de Reflexão sobre o Cinema Brasileiro, de João Carlos Rodrigues; Dossiê Boca: Personagens e Histórias do Cinema Paulista e O Coringa do Cinema, ambos de Matheus Trunk; Escuta do Desejo – Ensaios Sobre Psicanálise, Cinema e Literatura, de Dinara Machado; Horizontes Transversais – Artistas da Imagem e do Som em Minas Gerais (2000 – 2010), de Ana Moravi, e Perdeu a Memória e Matou o Cinema, de Solon Ribeiro.

A edição encadernada do roteiro do longa-metragem Os Desafinados, de Walter Lima Júnior, também foi lançada neste domingo, assim como a história em quadrinho Claun: A Saga dos Bate-Bolas, de Felipe Bragança, com arte de Daniel Sake, Diego Sanchez e Gustavo M. Bragança.

Os quadrinhos são inspirados pelo longa-metragem de mesmo nome de Bragança, e posteriormente dividido em três episódios de web-série. Esta também foi lançada no domingo, como parte do box Coleção Cavideo de DVDs. Além dele, os filmes Copa do Vidigal, de Luciano Vidigal; L.A.P.A., de Cavi Borges e Emilio Domingos, e Esse Amor que Nos Consome, de Allan Ribeiro, complementam o box.

A 18ª Mostra de Tiradentes segue até o próximo dia 31 de janeiro, com um variada programação.

FOTOS: Leo Lara, Nereu Jr e Biel Machado/Universo Produção

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