Crítica | CinemaDestaque

Isso Ainda Está de Pé?

Nasce um maestro?

(Is This Thing On?, EUA, 2025)
Nota  
  • Gênero: Comédia, Drama
  • Direção: Bradley Cooper
  • Roteiro: Bradley Cooper, Will Arnett, Mark Chappell
  • Elenco: Will Arnett, Laura Dern, Bradley Cooper, Andra Day, Ciarán Hinds, Christine Ebersole, Amy Sedaris, Blake Kane, Calvin Knegten
  • Duração: 120 minutos

À algumas obras, o tempo de maturação para a análise das mesmas carrega a esse caráter observacional algo de aperfeiçoado sobre nossa visão. Isso não é algo garantido, mas quando preciso retornar a Isso Ainda Está de Pé? quase três meses após assisti-lo originalmente por conta da estreia e do momento debruçado para a crítica, a respiração que a produção necessitava, se fez de maneira natural. O que parecia vazio e desprovido de significância, hoje soa como a elegia de um tempo de delicadeza, que somente a maturidade pode trazer ao indivíduo. Assim como o analista, o filme não tenta impor uma visão específica de mundo, e torná-la a única possível a respeito do que se vê. Existe, de maneira sufocada, uma concepção onde os gatilhos para clímax precisam estar explícitos, fugindo desse tempo de maturação natural e tão pouco alcançado.

Também para Bradley Cooper, seu autor, há uma involução necessária, dentro das bases que ele vinha criando. Ainda que, mais uma vez, estejamos diante dos microfones e das possibilidades artísticas, aqui há o acaso das situações. Há uma implosão que possibilita o nascimento de uma nova realidade, e não o oposto; não existe o desejo primitivo de estar lá, mas uma espécie de refúgio quando já não há mais nada. E dessa maneira despretensiosa, um novo autor é trazido para o debate que uma soberba crescente alimentou; em Isso Ainda Está de Pé?, a realidade é disposta de maneira diferente. A arte não é maior que a vida, não é sequer do mesmo tamanho, mas sim é um gancho de redenção possível perante o que era prosaico, e agora nada mais é. 

Cooper, após a ascensão de Nasce uma Estrela, caiu em desgraça após mirar alto demais com Maestro. O recálculo de rota mais rápido que se tem notícia recente é essa singela história de (des)amor em tempos de melancolia, causada pela reflexão necessária do meio do caminho. Assim como seu diretor, Alex não imaginava tal futuro e nem identificava a obrigatoriedade de reconfiguração pessoal, até que isso se impõe ao personagem. O autor tão megalomaníaco da empreitada anterior, que apenas pareceu bem sucedida, percebeu mais rápido que qualquer um à sua volta, que o futuro era se reconectar às suas origens. O que nasce de Isso Ainda Está de Pé? foi aprendido com seus colegas originais, e acaba por nascer não como uma elegia à arte, mas como uma espécie de conexão à vida – a real, e a não à fictícia.

O realizador, que mesmo durante os festejos anteriores, demonstrara habilidade no olhar para o microscópico dentro das relações, na cumplicidade com seus atores ao decupar as cenas em prol dos mesmos, aqui está liberto das obrigações de grandeza. Pode enfim escorregar para as lentes de Matthew Libatique (o fotógrafo indicado ao Oscar pelos suas incursões anteriores) a construção adequada para os enquadramentos lúgubres de onde Alex emerge, aos poucos, através das luzes difusas de um bar, por trás das sombras que tentam assolar sua vida comum. Existe, enfim, a percepção de que não apenas seus atores precisam encontrar um guia, mas de que o próprio filme ganha indo além do conforto de depender apenas deles. Em sua aparente introspecção, Isso Ainda Está de Pé? dá a Cooper a personalidade que ele jurava ter sendo tão reiterativo, anteriormente, em seu clamor por atenção. 

É salutar para qualquer filmografia que seus autores flerte tanto com a humildade quanto com a pretensão, mas até aqui o cinema de Cooper estava submerso na segunda nota. Isso Ainda Está de Pé? mostra ao ator/diretor que humanidade nenhuma consegue florescer entre excessos, e que a chave de identificação de um autor tenha a ver com que o espectador consiga se relacionar. Estamos diante, em linhas gerais, de um casamento encerrado de comum acordo, a bordo de civilidade. Ou nem tanto assim, já que para além das bordas do que vemos, ainda jaz um desejo de pertencimento; isso será aplacado quando os personagens se verem valorizados em outros laços, que não exclusivamente os familiares. Ao descobrir a si mesmos, talvez exista uma nova forma de conexão, de atração e de uma ideia de compreensão que parecia perdida. 

Igualmente renovado está o ator Cooper. Sua entrada em cena é a previsão de um desastre, mas essa é a única curva aguda que seu personagem tem, que vai se recolhendo ao longo da narrativa e servindo a ela com o propósito único de ser ‘orelha’ de Alex. Vivido por Will Arnett com a estranheza de um astronauta prestes a descobrir um mundo novo, o roteiro tira fascínio dessa concretude – um casal se separa, e é isso. Arnett e Laura Dern são adoravelmente humanos, em toda sua pequenina complexidade mundana. A lente não se intromete nas particularidades de suas imagens, apenas fornecendo a quem o assiste o mínimo necessário para que o afeto consiga se sobrepor aos vestígios do rancor. 

Um grande momento
Alex e Tess no clube de comédia 

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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