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A Felicidade das Pequenas Coisas

O macro, o micro e o honesto

(Lunana: A Yak in the Classroom, BHU, CHI, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Pawo Choyning Dorji
  • Roteiro: Pawo Choyning Dorji
  • Elenco: Sherab Dorji, Ugyen Norbu Lhendup, Kelden Lhamo Gurung, Pem Zam, Sangay Lham, Chimi Dem
  • Duração: 110 minutos

A Felicidade das Pequenas Coisas, indicado ao Oscar de filme internacional pelo Butão, é tão direto que, mesmo seu padrão metafórico, soa como linguagem coloquial, e essa é a melhor definição que poderia vir de um longa metragem vindo de um país que mal consegue produzir cinema em escala. Olhar para suas imagens, para o que é construído diegeticamente pela sua narrativa, analisar a forma envolvente com que a produção enlaça espectador e tem a ousadia de nos fazer questionar valores muito prementes na sociedade de hoje, é de se admirar – porque não apenas é muito consciente, como também é feito de uma forma muito limpa, sem subterfúgios. As coisas, pequenas ou grandes, são como são e é bom que sejam tratadas com honestidade e empatia.

O filme é dirigido por um estreante, Pawo Choyning Dorji, que não está na função de aventureiro. Ainda que sua narrativa seja assumidamente didática vez por outra, seu trabalho enquanto autor é de primeira linha, no sentido de fazer o que precisa ser feito a essa história em particular, com essas curvas. E o que precisaria ser feito em cena? Sem parecer de maneira alguma uma espécie de guia turístico local (e muitos diretores já caíram nessa armadilha), nos levar para o ambiente-foco, e nos aproximar dessa mesma paisagem da maneira como seu protagonista, que é tão estrangeiro a ela quanto o espectador, o faz. Sem endeusar sua realidade mas seduzindo gradativamente quem vive e quem assiste, o diretor faz escolhas muito certeiras ao decidir o que mostrar e como ambientar.

A Felicidade das Pequenas Coisas
Divulgação

Em cena, temos um personagem relutante em sua função, o jovem professor Ugyen, que precisa mudar radicalmente de vida justamente no momento onde ia mudar radicalmente de vida – ainda que as duas decisões não possam ser mais conflitantes. O protagonista de A Felicidade das Pequenas Coisas é um jovem do mundo prestes a ganhá-lo, quando recebe a notícia de que terá de se embrenhar até o coração do seu próprio mundo, até uma comunidade conhecida por ter a escola mais afastada que se tem notícia. Aos poucos, o filme vai nos trazendo novos dados que nos desconstroem as certezas em relação ao que ele quer proporcionar; não é nada muito original ou singular, mas a maneira suave com que o filme se alicerça, é perceptível, sem jamais correr com sua ação nem exacerbar tempos mortos.

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O trabalho de Hsiao-Yun Ku na montagem de A Felicidade das Pequenas Coisas é daqueles que poderíamos chamar de pequeno milagre. Desde o princípio, as informações são dadas no ritmo correto, ainda que seja preciso demarcar uma diferença de encadeamento entre a passagem inicial e a primavera de Ugyen. Mas quando a jornada do personagem pede que ele retorne a um estado de contemplação e precise reavaliar o ritmo ao seu redor, a edição tinge o filme de elementos muito particulares, sempre dinamizando uma produção que poderia ser arrastada e cansativa, nunca se aproximando desse estado. É incrível como o filme consegue se espraiar por quase duas horas sem jamais demonstrar sua duração, porque o tratamento das imagens e do seu tempo particular é conseguido de maneira exemplar.

A Felicidade das Pequenas Coisas
Divulgação

E sim, estamos falando de um filme cuja necessidade de ambição estética é a do teletransporte não apenas para uma vila encrustada nas montanhas, mas de um retorno a um ideal de vida que não está mais nos grandes centros do mapa. Em Lunana, as coisas tem outro ritmo primeiramente porque a vida lá é primitiva geograficamente, mas não falta àquelas pessoas a ideia do primordial. É óbvio que a Dorji interessa falar sobre o contraste entre a tradição e a modernidade, e isso está no filme inteiro, isso É o filme que se pretende contar, esse contraste entre o místico e o palpável, entre um sonho possível e um sonho intangível, entre se imaginar um animal selvagem e um homem selvagem, mas sem jamais perder o senso da delicadeza, que estão sendo percebidas em outras paragens no cinema hoje; pra mim, estão aqui.

Além disso tudo, há uma sensação que perpassa toda a duração (que não é sentida) do filme, e que não poderia representar mais um filme positivamente, que é a vontade de mergulhar naquele universo com a mesma força das correntezas que arrastam Ugyen. Não apenas desbravar Lunana, conhecer suas casas e avançar pelo campo de trigo, não apenas torcer pela relação entre professor e alunos se transformar em troca absoluta, mas da vontade de conhecer mais sobre uma cultura, um modo de vida, acima de tudo um cinema recém-desabrochado, cuja uma indicação ao prêmio máximo do cinema só pode ajudar. Não tem como sair de A Felicidade das Pequenas Coisas com outro sentimento que não o de recompensa, que o filme ainda transforma no fim em deliciosas reticências, para todos os lados. Chama honestidade o que vemos.

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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