Crítica | Streaming

Abercrombie & Fitch: Ascensão e Queda

Jovens, sexo e supremacia ariana

(White Hot: The Rise & Fall of Abercrombie & Fitch, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Alison Klayman
  • Roteiro: Alison Klayman
  • Duração: 88 minutos

Filmes, séries e livros sobre a indústria da moda, com suas marcas onipotentes e personagens excêntricos, sempre rendem conteúdos cativantes. Eu particularmente adoro. Por algum motivo, o glamour que o universo representa acaba por sempre arrastar consigo dramas repletos de traição, decadência e, algumas vezes, até assassinato. Quando fiquei sabendo do lançamento de Abercrombie & Fitch: Ascensão e Queda, novo documentário da Netflix, fiquei empolgado. E foi surpreendente. Pode ser encarado, claro,  como um drama ou uma polêmica do mundo da moda, mas chama a atenção a forma como esse caso está mais delimitado por contornos sociais do que um típico melodrama da alta costura apresentaria.

A primeira surpresa que o documentário de Alison Klayman me apresentou, particularmente, diz respeito ao tamanho do impacto cultural que a Abercrombie & Fitch (A&F) teve no final dos anos 1990 e início dos 2000, principalmente nos EUA. Algo que nunca passou pela minha cabeça, mas que o filme faz questão de estabelecer ainda nos primeiros minutos. Em seguida, veio aquela surpresa citada no primeiro parágrafo: o caso da A&F não se trata de uma intriga de família ou uma contenda de amores proibidos. É, na verdade, a história de como uma das maiores empresas do mundo da moda sustentava toda sua estratégia comercial em políticas racistas e assédio moral e sexual. 

Abercrombie & Fitch: Ascenção e Queda
Netflix

Não é novidade que a indústria fashionista tem entre suas principais cartas o exclusivismo e a construção do desejo, que, na maior parte dos casos, envolve estabelecer uma fronteira entre nós e eles, os que podem e os que não podem acessar uma determinada marca ou produto. Mas o nível de institucionalização do racismo e do assédio dentro da A&F, e a falta de cara-de-pau com que era efetivado, não deixam de chocar. O documentário apresenta ainda o irônico fato de que a A&F, uma das empresas responsáveis pela construção na contemporaneidade da imagem do ‘homem-hétero-viril-branco-americano’, na verdade, tem toda sua estética abertamente pautada em uma espécie de homoerotismo ambíguo pincelado de supremacismo ariano (que beira a estética dos murais de propaganda nazista). E isso tem impactos sérios nas vidas de modelos e funcionários da empresa.

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Como qualquer bom documentário da Netflix, tipificação fílmica que já pode ser encarada como um gênero à parte, a coisa não faz a menor questão de inovar nas estruturas narrativas, ou seja, na forma como a história nos é contada. É tudo bem mastigado, segue aquela fórmula que a empresa estabeleceu ao longo dos últimos anos e que hoje é encontrada em absolutamente todos os documentários que produz. Não nego que funciona e atrai espectadores. Afinal de contas, há momentos em que tudo que você quer é uma história surpreendente, mas contada em formato reconhecido, confortável. É bem o caso de Abercrombie & Fitch: Ascensão e queda.

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Marcus Benjamin Figueredo

Marcus Benjamin Figueredo é corintiano, cineasta e jornalista, filho da UnB. Também é pesquisador e já atuou como montador de clipes musicais, produtor, curador e membro do júri em festivais de cinema universitário e roteiro. Gosta de sinuca.
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