Dez anos depois da primeira votação organizada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), a entidade divulgou uma nova edição da lista dos 100 filmes brasileiros essenciais. A seleção faz parte das comemorações pelos 15 anos da associação e servirá de base para um novo livro com textos críticos dos filmes, previsto para o fim de 2026 pela editora Letramento.
A atualização amplia o recorte histórico da lista anterior e incorpora transformações profundas do próprio cinema brasileiro e do perfil da crítica nacional na última década. Entre os novos títulos incluídos estão produções recentes como Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, além de uma presença mais expressiva de realizadoras mulheres e cineastas negros.
Segundo o presidente da Abraccine, Orlando Margarido, a revisão se tornou necessária diante das mudanças ocorridas desde a primeira edição do projeto. “Desde a primeira edição do livro, resultado da primeira lista, a sociedade mudou, assim como o perfil da associação, que naturalmente cresceu e se modificou. Esta acaba sendo uma revisão importante e necessária da nossa história do cinema”, afirmou.
A vice-presidente da entidade, Cecilia Barroso, destacou a diversidade de obras lembradas durante o processo de votação. Ao todo, foram citados 1.169 títulos entre curtas e longas-metragens de diferentes épocas. “Diferentemente da lista anterior, optamos pela não classificação dos escolhidos, deixando os títulos num mesmo patamar, já que todos são essenciais para conhecermos o cinema brasileiro”, explicou.
A nova seleção atravessa diferentes movimentos e períodos da cinematografia nacional. De Limite (1931), de Mário Peixoto, ao cinema contemporâneo de Kleber Mendonça Filho, passando pela chanchada, Cinema Novo, Cinema Marginal, documentário moderno, Retomada e produções recentes que ampliam as discussões sobre raça, gênero e território, a lista desenha uma espécie de percurso possível pela história do audiovisual brasileiro.
Entre os destaques da atualização aparecem obras dirigidas por mulheres que não figuravam na edição anterior, como A Entrevista, de Helena Solberg; Os Homens que eu Tive, de Tereza Trautman, Amor Maldito, de Adélia Sampaio, e O Ébrio (1946), Gilda de Abreu. Há um aumento também na presença de cineastas negros, caso de Zózimo Bulbul com Alma no Olho e Gabriel Martins com Marte Um.
Confira a lista completa dos 100 filmes brasileiros essenciais eleitos pela Abraccine:
- Limite (1931), Mário Peixoto
- Ganga Bruta (1933), Humberto Mauro
- O Ébrio (1946), Gilda de Abreu
- Também Somos Irmãos (1949), José Carlos Burle
- Carnaval Atlântida (1952), José Carlos Burle
- O Cangaceiro (1953), Lima Barreto
- Rio, 40 Graus (1955), Nelson Pereira dos Santos
- Rio, Zona Norte (1957), Nelson Pereira dos Santos
- O Grande Momento (1958), Roberto Santos
- O Homem do Sputnik (1959), Carlos Manga
- Aruanda (1960), Linduarte Noronha
- O Assalto ao Trem Pagador (1962), Roberto Farias
- O Pagador de Promessas (1962), Anselmo Duarte
- Os Cafajestes (1962), Ruy Guerra
- Porto das Caixas (1962), Paulo Cesar Saraceni
- Vidas Secas (1963), Nelson Pereira dos Santos
- À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), José Mojica Marins
- A Velha a Fiar (1964), Humberto Mauro
- Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Glauber Rocha
- Noite Vazia (1964), Walter Hugo Khouri
- Os Fuzis (1964), Ruy Guerra
- A Falecida (1965), Leon Hirszman
- A Hora e Vez de Augusto Matraga (1965), Roberto Santos
- São Paulo Sociedade Anônima (1965), Luiz Sergio Person
- A Entrevista (1966), Helena Solberg
- O Padre e a Moça (1966), Joaquim Pedro de Andrade
- Todas as Mulheres do Mundo (1966), Domingos Oliveira
- A Margem (1967), Ozualdo Candeias
- Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), José Mojica Marins
- O Caso dos Irmãos Naves (1967), Luiz Sergio Person
- O Menino e o Vento (1967), Carlos Hugo Christensen
- Terra em Transe (1967), Glauber Rocha
- O Bandido da Luz Vermelha (1968), Rogério Sganzerla
- A Mulher de Todos (1969), Rogério Sganzerla
- Macunaíma (1969), Joaquim Pedro de Andrade
- Matou a Família e Foi ao Cinema (1969), Julio Bressane
- O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), Glauber Rocha
- O Despertar da Besta (Ritual dos Sádicos) (1970), José Mojica Marins
- Sem Essa, Aranha (1970), Rogério Sganzerla
- Um É Pouco, Dois É Bom (1970), Odilon Lopez
- Bang Bang (1971), Andrea Tonacci
- S. Bernardo (1972), Leon Hirszman
- Toda Nudez Será Castigada (1972), Arnaldo Jabor
- Alma no Olho (1973), Zózimo Bulbul
- Compasso de Espera (1973), Antunes Filho
- Os Homens que Eu Tive (1973), Tereza Trautman
- A Rainha Diaba (1974), Antonio Carlos da Fontoura
- Iracema, Uma Transa Amazônica (1975), Jorge Bodanzky e Orlando Senna
- Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), Bruno Barreto
- Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Hector Babenco
- Mar de Rosas (1977), Ana Carolina
- A Lira do Delírio (1978), Walter Lima Jr.
- Tudo Bem (1978), Arnaldo Jabor
- A Mulher que Inventou o Amor (1980), Jean Garrett
- Bye Bye Brasil (1980), Carlos Diegues
- O Homem que Virou Suco (1980), João Batista de Andrade
- Pixote: A Lei do Mais Fraco (1980), Hector Babenco
- Eles Não Usam Black-Tie (1981), Leon Hirszman
- Os Saltimbancos Trapalhões (1981), J.B. Tanko
- Das Tripas Coração (1982), Ana Carolina
- Pra Frente Brasil (1982), Roberto Farias
- Onda Nova (1983), Ícaro Martins e José Antonio Garcia
- Amor Maldito (1984), Adélia Sampaio
- Cabra Marcado para Morrer (1984), Eduardo Coutinho
- Memórias do Cárcere (1984), Nelson Pereira dos Santos
- A Hora da Estrela (1985), Suzana Amaral
- A Marvada Carne (1985), André Klotzel
- Filme Demência (1986), Carlos Reichenbach
- Ilha das Flores (1989), Jorge Furtado
- Que Bom Te Ver Viva (1989), Lúcia Murat
- Superoutro (1989), Edgard Navarro
- Alma Corsária (1993), Carlos Reichenbach
- Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), Carla Camurati
- Terra Estrangeira (1995), Daniela Thomas e Walter Salles
- Baile Perfumado (1996), Lírio Ferreira e Paulo Caldas
- Central do Brasil (1998), Walter Salles
- O Auto da Compadecida (2000), Guel Arraes
- Bicho de Sete Cabeças (2001), Laís Bodanzky
- Lavoura Arcaica (2001), Luiz Fernando Carvalho
- Cidade de Deus (2002), Fernando Meirelles e Kátia Lund
- Edifício Master (2002), Eduardo Coutinho
- Madame Satã (2002), Karim Aïnouz
- Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), Marcelo Gomes
- O Céu de Suely (2006), Karim Aïnouz
- Serras da Desordem (2006), Andrea Tonacci
- Jogo de Cena (2007), Eduardo Coutinho
- Saneamento Básico, o Filme (2007), Jorge Furtado
- Santiago (2007), João Moreira Salles
- Trabalhar Cansa (2011), Juliana Rojas e Marco Dutra
- O Som ao Redor (2012), Kleber Mendonça Filho
- O Menino e o Mundo (2013), Alê Abreu
- Branco Sai, Preto Fica (2014), Adirley Queirós
- Que Horas Ela Volta? (2015), Anna Muylaert
- Aquarius (2016), Kleber Mendonça Filho
- Arábia (2017), Affonso Uchoa e João Dumans
- As Boas Maneiras (2017), Juliana Rojas e Marco Dutra
- Marte Um (2022), Gabriel Martins
- Mato Seco em Chamas (2022), Adirley Queirós e Joana Pimenta
- Ainda Estou Aqui (2024), Walter Salles
- O Agente Secreto (2025), Kleber Mendonça Filho