Agarra-me Forte, de Ana Guevara e Leticia Jorge, parte de uma situação simples e devastadora. Adela perde a melhor amiga e, diante dos rituais do velório, percebe que nada ali consegue dar conta do tamanho da relação das duas. Sem transformar a experiência em um grande discurso, o filme parte da ruptura e passa a acompanhar uma mulher tentando entender como continuar quando a presença mais constante de sua vida desaparece.
A escolha das diretoras é apostar numa lógica afetiva do tempo. Quando Adela retorna ao passado e reencontra Elena e Luci na casa de praia, não há explicação, portal ou justificativa narrativa. A viagem acontece porque é assim que a memória funciona quando se está machucado. Com uma pegada naturalista e bem póxima, o que se vê em tela expõe uma relação de amizade que sempre existiu por inteiro e não precisa ser explicada. São mulheres que já se conhecem no olhar, no modo como dividem a rotina, nos silêncios que não precisam de tradução.
Com tudo ali já está perdido enquanto acontece e uma felicidade vacilante, cada ida e volta no tempo reorganiza o fim de semana do trio. Há elementos em Agarra-me Forte que funcionam para que esse encontro dure mais do que deveria, e no lugar do que seria apenas fantasia fica clara a insistência. Afinal de contas, quando alguém especial se vai, a cabeça tenta reter qualquer migalha de convivência, nada mais humano do que isso. Guevara e Jorge têm essa consciência e filmam de maneira direta, sem apelar para metáforas ou truques emocionais.
Tendo consciência de que tudo que vive naquele final de semana vai acabar, Adela tenta segurar a amiga, tenta adiar o que já sabe que vai acontecer, tenta reconstruir instantes que não vão voltar. O filme, em um comentário claro sobre o luto feminino em suas particularidades, olha para essa dor como parte da vida adulta, parte das relações entre mulheres que se existem por anos e que, quando chegam ao fim (em especial de maneira definitiva), deixam um buraco que não se resolve “seguindo em frente”.
Agarra-me Forte é grande em sua simplicidade, um filme que aposta num cinema que não precisa de grandes gestos para ser profundo. No lugar disso, trabalha com coisas banais e reconhecíveis, com o peso das relações reais, com a tentativa de prolongar o que importa. O final não busca explicar nada. Ele apenas devolve Adela para um momento impossível, expondo como a memória funciona quando ainda estamos tentando aceitar uma ausência. E o filme termina de um jeito aberto, sem resposta, mas com uma clareza brutal sobre o que significa perder alguém que definia o nosso dia a dia.
Um grande momento
O reencontro na casa de praia
[48ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]