Vivo 76

A psicodelia como registro

Há documentários musicais que se organizam em torno da consagração de um artista, outros preferem a cronologia, com trajetórias biográficas lineares. Vivo 76, de Lírio Ferreira, escolhe um caminho mais interessante para contar a história de uma obra inquieta. Em vez de falar de seu cantor e compositor, Alceu Valença, o longa investiga o universo que tornou possível o surgimento de um disco como Vivo!, lançado em 1976. A partir da celebração dos cinquenta anos do álbum, reconstrói uma constelação cultural, política e estética que vai muito além da figura de seu protagonista.

Desde os primeiros minutos, fica evidente que Lírio não está interessado na estabilidade da memória e, assim, arquivos, depoimentos, fotografias e registros de época se mesclam em uma interação de fluxo próprio. O diretor quer trazer o encontro entre tradições populares, psicodelia, contracultura e experimentação artística que marcou não apenas o disco de Alceu, mas boa parte da produção nordestina dos anos 1970. Vivo! não surge em tela apenas como um disco de sucesso que marcou uma geração. Ele é o resultado de uma intensa circulação de referências culturais, em um período particularmente complexo da história brasileira.

Alceu Valença é aquele que está no centro de tudo, mas sua obra surge ligada a uma geração que procurava expandir os limites da música popular brasileira sem romper com as raízes regionais. Vivo 76 recupera a energia daquele momento e destaca o Nordeste como fértil território de invenção estética, onde as guitarras elétricas, os ritmos tradicionais, o experimentalismo e a presença do imaginário sertanejo convivem sem hierarquias, formando uma identidade artística permanentemente em movimento.

A montagem do longa acompanha a proposta. Em vez de organizar os materiais segundo uma lógica linear e informativa, Lírio busca produzir sensações. Há momentos em que o documentário, mais do que interessado em explicar o passado, quer recriar sua atmosfera. A psicodelia se torna procedimento e imagens de arquivo, apresentações musicais e relatos contemporâneos se misturam numa construção que procura reproduzir o caráter inquieto da própria obra de Alceu. O resultado nem sempre privilegia a clareza histórica, mas encontra uma forma coerente de traduzir cinematograficamente o espírito de uma época.

O contexto político também está presente. Vivo! nasceu durante a ditadura militar, e o documentário compreende que a experimentação artística não pode ser jamais dissociada desse cenário. Sem transformar Alceu em herói da resistência ou restringir sua trajetória a uma narrativa militante, Vivo 76 sugere como a invenção estética funcionava também como gesto de liberdade. O álbum é um marco da psicodelia brasileira e, também, de uma produção cultural que encontrava formas de sobrevivência e reinvenção em meio ao autoritarismo.

Ainda que imperfeito, o longa tem qualidades e a maior delas está na recusa da monumentalização. O que se vê é mais interessante do que uma simples homenagem. o destaque é Alceu Valença, mas também ganham destaque todas as redes culturais que o formaram. Vivo 76 faz um retrato de um momento histórico em que música, cinema, contracultura e imaginação caminhavam juntos, deixando não apenas a trajetória de um artista, mas a vitalidade de um ambiente criativo que continua ecoando até os dias de hoje.

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