No meio do carnaval de Salvador de 2024, durante a passagem do trio de Ivete Sangalo, Baby do Brasil interrompeu a festa para anunciar a chegada do apocalipse. A cena circulou como meme, delírio e constrangimento, mas também mostrou uma presença que não se acomoda e invade qualquer espaço com convicção; misturando fé, espetáculo e a necessidade de ser ouvida.
Apopcalipse Segundo Baby, de Rafael Saar, encontra o magnetismo de Baby e opta por acompanhá-lo. Encontrando fatos, eventos e divagações, o filme se organiza ao redor dessa figura que atrai e desorganiza ao mesmo tempo. Baby ocupa o centro de tudo, mas nunca se estabiliza nele. Com cada fala da cantora deslocando a anterior e cada gesto sendo capaz de gerar uma nova cena, o retrato vira uma espécie de fluxo, em que passado, presente e projeção convivem sem hierarquia.
A narrativa se constrói nesse movimento irregular. Há a trajetória conhecida, os Novos Baianos, a conversão, os retornos, mas nada disso aparece como linha contínua. O filme prefere o desvio, a interrupção, o corte que expõe as contradições sem tentar conciliá-las. Baby surge como alguém que reorganiza a própria história enquanto a narra, ajustando sentidos, criando conexões e às vezes rompendo com elas no instante seguinte.
Existe um fascínio mesmo quando o discurso se torna difícil de sustentar. A fé, muitas vezes em chave apocalíptica, atravessa tudo, sem nunca se apresentar como algo isolado. Baby se mistura com a performance, com a memória, com o desejo de permanência. O palco, a entrevista e o encontro casual viram espaço de atuação. A presença passa a se construir na relação com o olhar do outro.
Saar se mantém próximo, sem buscar correção. Há momentos em que a condução se faz sentir, sobretudo na organização do material de arquivo e no ritmo imposto pelas imagens e pela música (espetacular, diga-se de passagem). O que prevalece em Apopcalipse Segundo Baby, porém, é o encontro com essa figura que escapa a qualquer tentativa de síntese. Baby não cabe em uma leitura única, e o filme não tenta forçar essa unidade.
No fim, o anúncio do apocalipse deixa de ser um episódio isolado e se conecta a um modo de existir que recusa a estabilidade e transforma cada aparição em acontecimento. Entre a crença, a memória e a performance, Baby do Brasil permanece em movimento, sustentando um magnetismo que depende de presença, não de coerência.
Um grande momento
Fugindo de casa
[21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto]