O ponto de partida de Americana é tão simples que poderia render um episódio de série: cinco amigas se envolvem numa briga numa praça pública por causa da traição de um boy lixo e acabam sendo levadas à delegacia. Aí começa o jogo de depoimentos, e cada verdade que aparece vai desmontando expectativas e revelando camadas dessas mulheres e do universo ao redor delas. Essa dinâmica de múltiplas perspectivas, organizada quase como um quebra-cabeça, dá ritmo e humor ao filme, sem perder de vista uma sensibilidade política e social importante.
O curta-metragem de Agarb Braga tnta se equilibrar entre a comédia e a crítica social. A narrativa não se resume a uma piada ou a um panfleto sobre questões LGBTQIA+, embora essas dimensões estejam lá. Até chega a construir personagens com voz própria e se diverte com a imprevisibilidade das relações humanas enquanto expõe, de leve mas com firmeza, tensões de classe, identidade e pertencimento.
O elenco, majoritariamente composto por artistas trans de Belém, traz naturalidade aos diálogos e situações, conseguindo imprimir autenticidade às personalidades e ao universo em que estão inseridos. Isso não é apenas performance: é resistência e presença, o tipo de coisa que a gente ainda não vê com frequência suficiente nas telas brasileiras.
Mesmo que haja irregularidades, a direção foge do registro documental e da teatralização exagerada. A câmera e a montagem brincam com os espaços, tanto da praça quanto da sala de interrogatório, de forma ágil, o que dá ao filme um senso de movimento e de pulsão que se alinha à energia de suas personagens.
E talvez a maior força de Americana esteja em sua honestidade. No fato de o filme não tentar ser um manifesto ou uma obra de arte autoindulgente. O curta é um retrato vivo de amizade, conflito e identificação. Algo que se vê muito por aí com tons forçados, mas é raro na forma como é apresentado aqui.
Um grande momento
Descobrindo tudo
[29ª Mostra de Cinema de Tiradentes]