Crítica | Streaming

Através da Minha Janela

Mais um - ou mais três, em breve

(A través de mi ventana, ESP, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Marçal Forés
  • Roteiro: Marçal Forés
  • Elenco: Julio Peña, Clara Galle, Pilar Castro, Hugo Arbues, Rachel Lascar, Eric Masip
  • Duração: 116 minutos

É mais difícil escrever sobre um filme quando temos excesso do que falar sobre, e por isso corremos o risco de deixar inúmeros detalhes de fora da discussão, ou quanto o grande vácuo assolou uma produção, a ponto de que qualquer coisa escrita já terá sido em outros textos de outros filmes, por conta de seu vazio de propósito? Entendam, Através da Minha Janela não é um pecado mortal cometido à cinefilia, talvez fosse melhor sê-lo inclusive. No lugar disso, existe uma produção que é lançada quase mensalmente (anualmente, com toda certeza) por algum conglomerado cuja aposta é arrebanhar views – ou audiência, ou espectadores – para um produto reciclado de tantos outros que a referência se perde e em seu lugar fica só a certeza de que em breve estaremos diante de um novo similar.

Marçal Forés é um jovem diretor espanhol em seu terceiro longa, aqui sob as asas da Netflix e adaptando o primeiro livro de uma série (jura?, é uma adaptação de uma coleção de livros para “jovens adultos”?, não me digam!) de campeões de vendas escrita por Ariana Godoy e que, provavelmente, será um hit na plataforma que renderá a adaptação dos outros. Ao saber que essa série, cada um deles, contempla um tomo da vida de três irmãos, dá uma micro animada em saber onde iremos parar nos próximos volumes, ao investigar uma família riquíssima dona de um império e especificamente seus herdeiros bonitos e másculos. Podem inclusive ter sido rodados juntos – o que provavelmente faria mais sentido – mas se tratando de uma apresentação, diria que algumas coisas se perderam na transposição.

Através da Minha Janela
Michael Oats/Netflix

O foco narrativo aqui é o romance entre Ares Hidalgo (os três irmãos têm nomes de deuses gregos) e Raquel, uma “plebeia” vizinha de janela. Provavelmente os dois outros irmãos, como já vimos sutilmente aqui, tem/terão desenvolvimentos muito menos repetitivos e talvez até consigam alguma originalidade. Esse aqui é o básico do básico: “pobre” menina – no caso aqui, classe média seria a expressão – se apaixona por rapaz afundado em dinheiro, cujo único interesse é colecionar conquistas e descartá-las na sequência, não sem antes transar bastante com elas. O encontro esses dois mundo, que são diferentes mas se esbarram ao alcance de um Wi-Fi, se dá sem muitos empecilhos por parte de nenhuma parte, embora isso na amarração final seja esclarecido. Ou seja, os conflitos que envolvem esse casal são igualmente batidos.

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Logo, o filme faz uma salada de proporções indigestas. Tem um tanto de Cinquenta Tons de Cinza em uma visão meio distorcida do que seria o feminismo, tem outro bocado daqueles livros da Barbara Catland onde jovens inocentes caíam de amores por milionários machistas, tem um pouquinho de “high school teen” com direito a clímax no baile de formatura e tem aqueles dilemas de quinta da família endinheirada que proíbe romance entre classes sociais distintas – e a menina super passa por rica! Enfim, apesar disso, não há muita surpresa que o conteúdo seria esse, então o que está em jogo é o quanto o espectador se decepcionou com algo que só prometeu o que entregou. Sem qualquer tipo de substância ou sofisticação, Através da minha Janela é o que é.

Através da Minha Janela
Michael Oats/Netflix

O que chama a atenção é o erro mais comum de adaptações literárias, que é a própria adaptação. Com certeza não é um trabalho de fácil resolução, mas qualquer prazer possível no produto desce pelo ralo quando toda a ação parece um resumo do todo, muito maior. Se tratando de um filme feito de maneira industrial para aplacar um público muito ávido por coisas novas que não necessariamente precisam ser um novo Casablanca, essa preocupação não existe, e na tela vemos o que poderia ser comparado a um compacto de novela exibido no “Vale a Pena Ver de Novo” – tiraram as tramas paralelas, as cenas paralelas, os personagens paralelos, a ação paralela… bom, e restou o sumo do sumo, só o essencial para a compreensão, e a coerência, o tempo narrativo, o tempo de gestação das coisas, pra quê, né?

Levando em consideração que provavelmente vem mais dois por aí, fica a torcida para que a trilogia Através da Minha Janela se faça em organicidade com a soma dos próximos capítulos, onde poderíamos sonhar com algo mais completo. Por ora, fica um título de encomenda da Netflix para ser consumido maciçamente durante fevereiro, provocando a adesão de novos fãs, promovendo a compra de livros que se transformarão em breves acumuladores de poeira, mas que diverte por quase duas horas. Ou masoquismo mudou de nome? A pensar.

Um grande momento
A queda na piscina

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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