O retorno nem sempre está associado à um espaço físico. Quando Diana volta à comunidade onde cresceu, durante a festa de Cosme e Damião, enfrenta mais do que a sua memória. Aquele é um espaço onde, em sua própria estrutura, passado e presente deixam de se separar com clareza. O curta de Xulia Doxágui trabalha o deslocamento sem pressa, deixando que a experiência se construa a partir do encontro com aquilo que permaneceu.
A estrutura é simples, quase mínima. O retorno, a festa, a presença de uma criança que convida para brincar. Elementos narrativos que funcionam como passagem e o que se instala é uma outra lógica, em que o real se abre para o encantamento sem que a transição seja óbvia. A infância aparece mas como presença ativa, como algo que ainda insiste, a despeito do tempo passado.
Tudo é construído de forma muito simples. A festa de Cosme e Damião é o elemento que organiza a experiência, definindo o ritmo e atravessando os corpos e os gestos como tradição, em momentos de expectativa, preparação e realização. A maneira como o filme articula o universo dá densidade ao movimento e a relação com o sagrado não surge como explicação, vem incorporada à forma como o mundo se apresenta. Matéria, afeto e espiritualidade coexistem sem hierarquia, como parte de uma mesma continuidade.
A dimensão atravessa também a ideia de luto que Babalu é Carne Forte sugere. A perda do irmão gêmeo se organiza não como trauma a ser resolvido, mas como ausência que permanece, se desloca e se encontra em outras formas de existência. Sem responder a ausência, o encontro com a criança misteriosa, a reorganiza. E o curta opta por não buscar a resolução, preferindo manter esse estado em que lembrar e viver acontecem ao mesmo tempo.
A encenação acompanha o gesto. Há muito cuidado na construção do espaço, nas cores, na presença dos corpos, que dão ao filme uma textura sensorial forte. A imagem participa do encantamento, não apenas o ilustra. O que se vê não é a tradução de uma ideia, mas a tentativa de sustentar um mundo em que visível e invisível estão sempre juntos.
Babalu é Carne Forte encontra sua força na recusa em separar. Não organiza a experiência em explicação, não reduz o sagrado a símbolo, não transforma o retorno em resolução. O que fica é um estado de atravessamento, em que a infância, a memória e a fé continuam atuando, não como passado, mas como algo que não deixa de existir.
Um grande momento
O golpe do gêmeo
[XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema]