Contact Lens

Jeanne Dielman é uma obra inescapável para aqueles que gostam de cinema. Tanto que hoje é considerado o melhor filme de todos os tempos pela famosa lista da Sigh&Sound e pelo BFI. Dirigido por Chantal Akerman e lançado em 1976, o longa acompanha o cotidiano da dona de casa do título, observando as suas tarefas diárias com uma câmera fixa que destaca a monotonia e o peso do dia a dia, por mais que ele assim nào pareça. Retrato da posição da mulher e daquilo que o patriarcado determina, é um filme que não envelhece, mesmo que o tempo tenha passado e muitas coisas tenham mudado na sociedade. Falar dele nunca é demais porque ali na tela está um pouco a vida de todas, mães, filhas, solteiras, casadas, não importa. Em algum momento a mulher que assiste vai se ver no tédio e na saturação de Jeanne.

O vazio que se preenche – e assim aumenta – com tarefas cotidianas, num repetir infinito, em especial nessa configuração de domesticidade está em vários filmes, com alguns até conseguindo trazer a sensação do marasmo e incompletude da obra-prima de Akerman. Não se pode dizer o mesmo de Contact Lens porque o que o longa de Ruiqi Lu busca não é alcançar apenas uma sensação. Ele vai além ao duplicar existências. Mais do que referência – e reverência –, a narrativa fantástica permite criar a interação entre dois universos, diferentes no tempo e no espaço, mas idênticos em percepção. Partindo do reconhecimento e “visita” constante, o transitar entre aquelas duas existências transcende a tela pela identificação. Aquela jovem que se vê agora é Jeanne, e que mulher nunca foi?

O filme acompanha os dias dessa jovem diretora e fotógrafa que, entre criações, não consegue sair de casa. Enquanto vive sua claustrofóbica rotina doméstica, ela passa os dias assitindo a uma versão própria de Jeanne Dielman, criada também por Lu. Em um compasso lento e arastado como o das duas vidas que se encontram, o choque acontece pelas diferenças nas personalidades. Não que o objetivo seja a troca, mas a mudança e o reconhecimento do espaço da outra. Assim como sons que se atravessam e imagens que não encontram barreiras, elas agora têm a possibilidade de ultrapassar suas próprias existências.

A diretora tem momentos inspirados e boas ideias na elaboração estética daquilo que quer contar, construindo a atmosfera de fantasia sem se afastar do palpável. Há nonsense na interação e no transitar entre realidades, mas os ambientes e aquilo que preenche cada espaço vazio é muito reconhecível. Aproximando-se e afastando-se das duas personagens, não apenas pela escolha de plano, Contact Lens deixa tudo mais nítido: o lugar desta Jeanne e de sua espectadora particular não é comum apenas pela banalidade das situações. É comum porque é o de muitas. O que estava no passado, está no presente, numa manutenção infinita, mesmo que com conotações e experiências diferentes. 

Um grande momento
Tirando a lente de contato

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