Mosul

Traços de família

Mosul é a terceira maior cidade do Iraque, que entre 2014 e 2017 foi tomada de assalto pelo Estado Islâmico, que a ocupou durante o período instalando o terror por lá até três anos atrás, quando forças iraquianas tomaram a cidade de volta. Mosul é uma nova produção de sucesso da Netflix que, inspirada em eventos verídicos, reconta uma parte dessa retomada a partir do ponto de vista da SWAT local, que age por conta própria depois de últimos acontecimentos que serão detalhados ao longo dp filme, a estreia na direção do roteirista Matthew Michael Carnahan, que tem experiência em longas sobre conflitos armados (O Reino).

A produção foi apresentada no Festival de Veneza de 2019 e logo gerou interesse na Netflix, que o adquiriu e está lançando como outra produção dos irmãos Russo e que vem a ser um dos maiores sucessos da história do canal, Resgate. A dupla de produtores, alçada ao primeiro escalão nos trabalhos com a Marvel Studios (Os Vingadores: Ultimato, entre tantos outros), mais uma vez demonstra o grande faro para descobrir novos talentos e promover pupilos muito bem sucedidos, dessa vez com um projeto pirotécnico mas que não se resume a isso.

Apesar de quase 100% masculino, Mosul reaproveita uma máxima vista muitas vezes em filmes que abordam o exército americano, o “nenhum homem será deixado para trás”, mas aqui repaginado sob um viés que pouco a pouco revela um detalhe que o diferencia em comparação a seus congêneres. Através detalhes que se apresentam a princípio sutis mas que descortinam uma camada, o roteiro que também é de Carnahan une as motivações e reações de seus personagens como a uma família postiça, mas igualmente conectada por laços de empatia, a tal “família que escolhemos”.

Em uma esfera de violência ininterrupta, o filme apresenta aqueles personagens com perdas irreparáveis em condições cada vez mais fragilizadas que acabam servindo de elo para conectar um grau afetivo insuspeito inicialmente, mas que ao avançar pela narrativa, começa a criar verossimilhança ante pontos focais, como o momento onde o protagonista Kawa recebe os cuidados do seu major e segura a mão do mesmo, um misto de reconhecimento paterno com passagem de bastão, ou durante o choro de Waleed ao exclamar que o mesmo major é o pai da equipe; são momentos verdadeiramente tocantes inseridos em zona de guerra, que exacerba as reações dos envolvidos.

O filme acaba por assumir esse contorno familiar não apenas como uma sutileza metafórica narrativa, mas fincando seus pés no tema que está presente desde a primeira cena, quando Kawa perde o tio duarte um fogo cruzado na cidade em ruínas. Posteriormente uma dupla de crianças provocará a cena mais inusitada do filme, que se desdobra em uma adoção forçada a posteriori, e no entendimento do filme como um todo, que vai deixando as metáforas de lado para assumir um discurso explícito, que acaba por perder sua força ao perder sua imaginação e ganhar concretude.

Carnahan transforma a Mosul cenário em uma espécie de labirinto de escombros, funcional para cenas de ação muito eficazes e impactantes (como a do escambo) e ponto preparatório para ataques inesperados que podem vir de qualquer lugar a qualquer momento. Com a forma delicada que utiliza para falar de carência em meio ao horror da guerra, em como homens podem se sentir fragilizados emocionalmente e psicologicamente por trás da fachada, e como o processo de um combate transforma rapidamente personalidades aos pedaços, Mosul vai além do gráfico para invadir o psicológico do conflito, através de homens que deveriam proteger, mas que também precisam de conforto.

Um grande momento
A despedida entre irmãos

Fotos: José Haro/Netflix

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