estante

Resgate

(Extraction, EUA, 2020)
Ação
Direção: Sam Hargrave
Elenco: Chris Hemsworth, Golshifteh Farahani, David Harbour, Rudhraksh Jaiswal, Randeep Hooda, Pankaj Tripathi, Chris Jai Alex, Priyanshu Painyuli, Shataf Figar, Patrick Newall
Roteiro: Joe Russo
Duração: 116 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Quando a personagem de Golshifteh Farahani entra em Resgate para explicar o processo que vai desencadear a trama ao protagonista Chris Hemsworth (Thor), as linhas de diálogo não poderiam ser mais simples e diretas. Um sequestro. O filho de um barão da droga indiano. Levado por um rival de Bangladesh. No espaço de tempo mais curto possível. É tudo preto no branco assim, sem estratagema, sem elaboração dramática. As intenções são claras e nunca são falseadas para o espectador, que espera e recebe um filme de ação sem firulas narrativas que disfarcem sua função: a indústria do entretenimento. Às vezes, o cinema só precisa ser exatamente isso.

Sam Hargrave é um diretor estreante em longas, mas sua experiência cinematográfica é suprida pelo trabalho como dublê ao lado dos irmãos Russo, exatamente os responsáveis por grande parte da fase final do Universo Marvel, no qual Hargrave trabalhou. O agradecimento pelos serviços prestados são pagos aqui pelo roteiro escrito por Joe Russo (Vingadores: A Guerra Infinita) a partir de uma HQ, e a produção dos irmãos em conjunto com o Thor da franquia, que além de tudo ainda promove essa estreia com sua presença. Parece e é um grande produto de massa em larga escala, sem qualquer vergonha ou culpa pelo lugar que ocupa na cadeia cinematográfica. A verdade é que Resgate guarda algumas surpresas dentro do seu formato de “pancadaria ‘macha’ moderna”.

Chris Hemsworth e Golshifteh Farahani em Resgate (Extraction), 2020

A primeira e já citada é essa abordagem sem pudor dos seus lugares, de origem e destino. Seu roteiro e a tentativa de relevo em seu personagem central é rasa e tradicional de um padrão de cinema que ele representa e do qual se orgulha – o mocinho atormentado pela morte da família que se transformou num homem sem medo, por isso tão eficiente em seu ofício. Mas os valores de produção também enchem os olhos do público, que é apresentado a uma cidade ao mesmo tempo funcional aos seus propósitos e absolutamente fake, como uma cidade cenográfica global; não há qualquer juízo de valor dessa questão ao filme, que se invade de uma atmosfera híbrida do artificial com um lugar facilmente reconhecível da novela das 9.

O vigor empregado na produção é também invejável, e sua malha de arquétipos enfileirados não diminuem os esforços da mise-en-scène do novato, crescente em surpreender. Todo esse capricho na produção só começa a se fazer notar pouco depois da meia hora inicial, quando Resgate nos reserva um plano-sequência de 12 minutos acachapante. Ok, o recurso hoje virou carne de vaca e está presente a torto e a direita, tanto em produções de arte quanto em vencedores do Oscar, em igual escala. Mas a “magia” vai alguns passos além, quando a câmera entra e sai de carros em movimentada velocidade, sobe e desce escadas em disparada, se joga junto com os atores de um prédio a outro, sai varejada do alto de uma janela, participa de dois atropelamentos… e se o recurso é apenas uma ferramenta para se mostrar capaz da realização, a sensação ao final da sequência é de espanto. E maravilhamento.

Chris Hemsworth e Golshifteh Farahani em Resgate (Extraction), 2020

Óbvio que a partir daí seria ladeira abaixo, certo? Pois pense de novo. Ainda que esse fascínio não se repita, o jovem Hargrave resolve entregar todas as credenciais já em seu primeiro trabalho e realiza mais um punhado de cenas criativas ou emocionantes, repletas de uma energia típica de quem está começando e quer mostrar trabalho. O filme chega a promover o surgimento de uma espécie de versão dark e underground dos “garotos perdidos” de Peter Pan, que se desdobram ao longo da produção de maneira eficiente, com direito a ao menos um momento memorável, quando do seu ataque no beco.

Ainda que acabe resvalando no plot da amizade improvável para justificar a sanha protetora do protagonista, Hemsworth entrega um sólido momento na carreira aqui e se mostra capaz a voos cada vez mais independentes. Seja em cenas carregadas de testosterona, seja em passagens mais tocantes, e até no seu encontro com David Harbour onde combina os dois, Resgate chega ao belo clímax na ponte com saldo positivo também graças a absoluta entrega do seu protagonista e sua química com o jovem Rudhraksh Jaiswal, numa produção que levanta a bandeira do divertimento em larga escala, sem esquecer de mostrar qualidades superiores ao que o espectador poderia esperar em casa.

Um Grande Momento:
Os 12 minutos.

Poster de Resgate (2020) Netflix

Links

IMDb

Assistir na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo
Fechar