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Sem Destino

(Easy Rider, EUA, 1969)
Aventura
Direção: Dennis Hopper
Elenco: Peter Fonda, Dennis Hopper, Jack Nicholson, Antonio Mendoza, Phil Spector, Mac Mashourian , Warren Finnerty, Tita Colorado, Luke Askew, Luana Anders, Sabrina Scharf, Sandy Brown Wyeth, Robert Walker Jr.
Roteiro: Peter Fonda, Dennis Hopper, Terry Southern
Duração: 95 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Sem Destino

“A juventude é a embriaguez sem vinho.”
Goethe

Como incomoda essa tal juventude, com toda a sua liberdade. Entre ousadia, experimentações e falta de juízo é uma fase que perturba muito aqueles que não a compreendem. Esse espírito livre está por todo Sem Destino (Easy Rider), filme de 1969. Não é realmente a liberdade que torna o longa de Dennis Hopper gigante, mas todas as suas contradições.

Se identificam-se todas as características da fase, ali também está o desvendar de uma América profunda. Quando Billy e Wyatt sobem em suas motos para ganhar as estradas rumo ao sul e conhecer o Mardi Gras, festa como o carnaval que acontece em New Orleans, encontram-se com a intolerância extrema. Algo que não surpreende os que já conhecem o país.

Sem Destino (Easy Rider), 1969

Mas a partida é financiada de maneira heterodoxa, com dinheiro do tráfico de drogas, o que, de cara, causa uma ruptura na imagem dos protagonistas. Nesse remeter ao dinheiro, no fazer tudo por dinheiro, a primeira característica de um lugar onde isso impera sobre todas as outras coisas.

Se a viagem criada por Hooper começa de maneira torta, isso se perde ao som de Steppenwolf e com um visual de tirar o fôlego, bem aproveitado por László Kovács. A conjunção de música e imagem ritmo a Sem Destino e embala bem a relação de Billy e Wyatt. Tudo se engrandece com os encontros que se dão pelo caminho, primeiro com um hippie e depois com um advogado bêbado.

No primeiro, a representação do incômodo causado pela liberdade, pelo simples fato de ela ser maior. Aquela sociedade alternativa, que pode fazer o que tem vontade sem se preocupar com o material, é demais para os dois amigos, que até a curtem, mas preferem não ficar ali. É um sentimento que se compara, guardadas as devidas proporções, com aquilo que eles causam em todos os lugares que passam. Se o preconceito com os hippies é comedido e demonstrado de maneira debochada. O que recebem dos moradores locais, é agressivo, intimidador.

Dennis Hopper, Jack Nicholson e Peter Fonda em Sem Destino (1969)

E isso é acentuado com o segundo encontro, numa interpretação inspirada de Jack Nicholson (O Iluminado). Para os viajantes isso está em um lugar mais interessante, de um risco louco mas controlado, como eles gostam. Há loucura e não há limites, mas há estabilidade. Uma relação com o padrão, o status e, por que não, com o dinheiro, que faz lembrar o começo de tudo.

Ao mesmo tempo, a relação dos dois com o advogado sem objetivos, traz a este uma liberdade desconhecida e possibilita a exploração de um lado, onde a natureza e falta de rotina transformam a existência e dão razão a ela. É quando o sentimento contraria o que já está estabelecido, para alguns degenerando-o, e isso é insustentável para qualquer redneck.

Assim, encontram-se novamente com o preconceito, agora sendo alvos dele. E um preconceito que vai muito além da não aceitação e o afastamento, do deboche. É agressivo e sem limites. Ao encontrar essa realidade, Sem Destino faz uma espécie de radiografia da América profunda, onde as coisas não podem ser mudadas e qualquer nova alteração agride de maneira injustificada aqueles moradores.

Peter Fonda e Dennis Hopper em Sem Destino (1969)

A não-aceitação do diferente é a tônica do lugar e não há que se falar em empatia. O que se vê é uma maneira de continuar antigo, como se qualquer mudança colocasse em risco uma sociedade que se estabeleceu justamente na exclusão. Irônico que venha justamente de um país que se prega livre, mas aceita manter a escravidão, odiar os mexicanos e que vota no discurso odioso de Donald Trump.

Sem Destino deixou sua marca como a representação de uma juventude que estava se descobrindo e, com muita dificuldade, quebrando limites, além de inaugurar uma nova onda no cinema hollywoodiano, transformando os road movies para sempre. Com seu ritmo contraditório, personagens nem sempre coerentes, uma bela fotografia e uma montagem inovadora que indica ausências e completude, traz um frescor que só mesmo uma ode à juventude e à liberdade poderia trazer.

Um Grande Momento:
Mardi Gras.

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Easy Rider

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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