Crítica | Festival

Cano Serrado

(Cano Serrado, BRA, 2019)

  • Gênero: Ação
  • Direção: Erik de Castro
  • Roteiro: Erik de Castro
  • Elenco: Jonathan Haagensen, Rubens Caribé, Cibele Amaral, Cesario Augusto, Rodrigo Brassoloto, Sergio Cavalcante, Milhem Cortaz, Naruna Costa, Fernando Eiras, Ronaldo Lampi, Sílvia Lourenço, Paulo Miklos, Mariana Molina
  • Duração: 89 minutos
  • Nota:

Existem vários tipos de filmes de ação. É ótimo quando são muito bons, como John Wick ou Identidade Bourne, mas isso não é tão comum. Tudo bem para os medianos, aqueles que, na verdade, não são bons, mas tem personagens e atores carismáticos e são tão cheios de adrenalina que podem virar guilty pleasures, como a franquia Carga Explosiva. Por último, há aqueles que são ruins e não provocam no espectador qualquer tipo de sentimento pertinente ao gênero, mesmo que se esforcem para isso. Infelizmente, Cano Serrado se enquadra neste tipo.

O diretor Erik de Castro é um amante do cinema de ação, sem dúvida. Antes deste longa, havia dirigido o fraco Federal, mas não deixa de ser louvável que se dedique a um cinema de gênero pouco explorado no país. Aqui, entre referências, por vezes explícitas demais, e a vontade de acertar com os efeitos visuais e a estética característica, ele constrói as histórias de sargento Sebastião e do policial Luca.

Rubens Caribé em Cano Serrado (2019)

Mas as coisas saem muito diferentes do esperado. Logo de partida, uma cena baseada na emoção, aquela que daria o impulso e a justificativa para a trama causa outro tipo de sentimento, e ele não é bom. Não há cuidado com a marcação de cena, não se acredita naquilo que se vê e o arremate vem num injustificado voo de drone abrindo o quadro. É um prenúncio do que veremos por todo o filme. É possível perceber a dificuldade dos atores em segurarem seus personagens, ou mesmo o desconforto em alguns momentos. A canastrice se mistura com uma certa inabilidade interpretativa e cada um parece em um tom diferente, sem timing e sem química.

O desacerto é amplificado pelo roteiro confuso – que até parte de um bom argumento – e cheio de diálogos fracos e artificiais. E ainda tem gracinhas que tentam criar o vínculo, nem que seja para desprezas as personas, mas não funcionam. Quem, por exemplo, acharia uma boa colocar na boca de Paulo Miklos (É Proibido Fumar) uma frase desconexa com tudo em volta como “você tem fome de quê?” ou demonstrar a fúria do sargento justiceiro com a explosão “Se vierem, é guerra. Na nossa cidade mandamos nós”. E há vários buracos narrativos, com cenas deslocadas e uma profusão de flashbacks. É uma história que não consegue definir muito bem em que tempo será contada e usa, como muleta, essas idas e vindas para provocar algum mistério e, pior, explicar motivações da trama.

O que se vê vai virando uma bagunça, com personagens caricatos e capacidade interpretativa desperdiçada; várias pausas constrangedoras, como o sofrimento da esposa em casa, lá pela terceira parte do filme; e discursos artificiais, como o sermão da filha, a mesma personagem que encerra o filme de maneira bem óbvia, como se o espectador precisasse desse dado para, na contradição, entender o filme. Algo perdido entre o didatismo e o exagero.

Milhem Cortaz em Cano Serrado (2019)

Porém, há muitos filmes de ação que sobrevivem sem roteiro (que os vulgares não me ouçam falar isso) e a falta de carisma dos atores e personagens, mas desde que tenha boas cenas de ação. Quanto a isso, Cano Serrado também é bem insuficiente. Embora invista em eventos batidos e divertidos de filmes do gênero, não há um encaixe entre eles. Como se cada um devesse estar em um filme diferente, aliás, filmes diferentes não faltam no longa, uma vez que várias cenas emulam outras já vistas e talvez por isso, por essa vontade homenagear demais, haja o desacerto. Um desacerto que chega de maneira bem constrangedora a Leone.

E assim, mesmo que a persistência no cinema de gênero mereça todos os elogios, é necessário um pouco mais de cuidado e parcimônia da próxima vez. Parcimônia com o número de personagens, flashbacks, a trilha musical, aquilo que pede aos atores e o drone; além de cuidado com pelo menos um dos quesitos que vai fazer qualquer filme de ação eficiente: magnetismo e adrenalina. Sem carisma, com um roteiro fraco e cenas de ação constrangidas, a estrada de Cano Serrado é mais tortuosa do que precisava ser, e não chega a lugar nenhum.

Um Grande Momento:
Não há.

Poster de Cano Serrado

[7º BIFF]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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