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Tempo de Caça

(Sanyangeui sigan, KOR, 2020)
Suspense
Direção: Yoon Sung-hyun
Elenco: Ahn Jae-hong, Choi Woo-sik, Lee Jehoon, Park Hae-soo, Park Jung-min
Roteiro: Yoon Sung-hyun
Duração: 134 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

Tempo de Caça

“Esse não é mais o mundo onde você vivia”.

Já passou da metade de Tempo de Caça quando essa frase é pronunciada, mas o diretor sul-coreano Yoon Sung-hyun já mostra essa representação desde o princípio, e durante a sessão do longa essa base é reafirmada constantemente, até ser observada sob novo prisma. Trata-se de um futuro próximo, mas já humanamente devastado; com doses cavalares de urgência, tensão, melancolia e muito sangue (que até demora a ser derramado). O filme se recria a cada novo avanço narrativo, partindo de um filme de travessuras criminosas teen até chegar a um contínuo perpétuo filme de vingança, passando pelo filme de assalto, de amizade, etc, sem jamais deixar de ser orgânico em sua multiplicidade.

É também um filme político, que trata as inúmeras perdas sociais e econômicas como catalisador de uma nova ordem mundial alicerçada no medo, em suas inúmeras faces. É uma surpresa notar as entrelinhas positivamente mutantes do longa, que expande seu olhar para observar o cinema a partir de ângulos infinitos de definição de gênero. Absorvendo características inerentes a tantos segmentos, a colcha de retalhos aqui foi costurada com esmero. Com uma atmosfera crescente de suspeita ao acessar dispositivos de descrença constante no espectador, o diretor tece uma inteligente teia de dúvida incessante: afinal, o que de fato está acontecendo em Tempo de Caça?

Tempo de Caça (2020)

A Coreia do Sul vive um momento singular em seu cinema, com média de acertos de cerca de 8 pra 10. E nem são necessariamente acertos simples. São acima de tudo filmes que reorganizam ferramentas fundamentais na forma e no conteúdo do fazer cinematográfico. É apenas o segundo longa de seu diretor, mas que comprova uma força incansável de uma cinematografia que se reinventa a cada nova produção. Não é como se já tivéssemos decodificado as diretrizes desse cinema atual e conseguíssemos antever os códigos particulares de cada filme, longe disso. Aqui, por exemplo, não há uma pressão por definições taxativas quanto a natureza de suas ações; metaforicamente, Tempo de Caça se libera para ser vários em um, e acertar em praticamente todos.

O filme teve sua estreia fora da competição no último festival de Berlim e seu sucesso é justificado. Estamos diante de uma obra que propõe inúmeras leituras sobre suas camadas, das mais simples e diretas, próprias do cinema direto, até propostas amplas de significação, como a natureza avassaladora do medo. Medo: uma sensação desagradável desencadeada pela percepção de perigo, real ou imaginário, diz a definição do dicionário. Pois bem, investigando a fundo chaves da criação dessa sensação, Yoon consegue borrar as percepções acerca de sua narrativa para instigar o espectador sempre a pendular entre o real e o imaginário, promovendo o desconforto durante toda a projeção e amplificando o alcance de uma obra sofisticada.

Tempo de Caça (2020)

Todo o trabalho de construção de planos do filme vai além de se vender esteticamente. Ela comunga com a obstinação do diretor em fazer refletir enquanto entretém. Por isso o excesso de vermelho, de espaços vazios e onde o silêncio poucas vezes é tratado levianamente, com propósitos muito aguçados a respeito do trabalho de sonorização, sempre na faixa do espetacular. Aos poucos, o filme abraça o horror que pulsa imageticamente em si e começa a revestir seus elementos, e aí somos cada vez mais inseridos num contexto onde o mal reside nas sombras e, a partir delas, se apropria de signos do terror para varrer de desconfiança cada beco, cada névoa, cada reflexo. Afinal, o bicho papão existe ou ele é uma representação pictórica do nosso medo?

Repleto de sequências que nascem inesquecíveis, Tempo de Caça emerge numa seara dos produtos de streaming – está disponível na Netflix – com a potência que só um grande título pode ter, investigando imagens para entregar um material tão completo, ressignificando conceitos já tão filmados sobre a tensão, além de apresentar um trabalho de composição de planos na casa do irretocavel. Da invasão à central de apostas pelos telhados da cidade ao desfecho do vilão-força da natureza captado do alto, passando pelo diálogo com o traficante de armas, aos olhos fechados do protagonista, até chegar na emblemática despedida entre dois amigos, Yoon entrega um produto acima da média em todos os pontos, que vibra em vermelho com um profundo debate sobre as diferentes encarnações do medo, que reverberam e transformam todo seu filme em uma produção além do que se imagina.

Um Grande Momento:
Na praia à noite sozinhos

Links

IMDb

Assistir na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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