Crítica | Festival

A Mulher de Todos

A provocação ao moralismo e ao sistema

(A Mulher de Todos, BRA, 1969)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Rogério Sganzerla
  • Elenco: Helena Ignez, Jô Soares, Stênio Garcia, Paulo Villaça, Antonio Pitanga, Abrahão Farc, Thelma Reston, Silvio de Campos Filho, José Carlos Cardoso, Antonio Moreira, José Agrippino de Paula
  • Duração: 93 minutos

Eis aqui um longa que não tem freio e nem a menor intenção de agradar. Sem fazer concessões, Rogério Sganzerla faz de seu A Mulher de Todos um filme insolente, espalhafatoso, debochado e eterno em sua contestação e visual. E eterno porque vai além da histeria do cinema de invenção com a presença soberana de Helena Ignez. Não estamos vendo um filme qualquer: é um filme que tem dona, é governado por ela, não apenas pelas mãos do diretor, mas pelo corpo, pelo olhar, pelo gesto de Helena. Uma mulher no controle absoluto da narrativa, em plena ditadura militar.

Ângela Carne e Osso não é apenas uma personagem inventada no roteiro, é um corpo político em movimento. Uma mulher que não pede licença para existir, não se curva aos homens que a rodeiam e nem se desculpa por desejar. Helena transforma cada cena em desfile, mas longe do lugar de musa inspiradora, ela é autora e constrói Ângela além daquilo que estava previsto, inundando o filme com a própria presença e reescrevendo o espaço da mulher dentro do cinema brasileiro.

Quanto à direção, Sganzerla se entrega ao excesso. Colagem, canibalismo pop e carnaval misturado com noir se misturam em um filme que cospe referências e ri da própria precariedade. A montagem é nervosa, frenética, os planos são sujos, o som entrecortado. Tudo é pensado para ser desconfortável, para negar qualquer ideia de beleza clássica, e, no Brasil atravessado pela repressão do AI-5, é um tipo de cinema que aparece como resposta a um país sufocado. A Mulher de Todos vai além da afronta política tradicional e se arrisca ao dar à mulher um lugar que lhe era interditado: o de dona da própria história. Não existe punição para Ângela Carne e Osso, não há arrependimento, não há trajetória redentora. O filme, assim como sua protagonista, se recusa a pedir desculpas.

É um cinema que renega a ordem, que faz da sujeira linguagem, da velocidade método, da improvisação estética. Mas o mais revolucionário é a liberdade de Helena. O escândalo maior não está no sexo, no deboche ou na provocação ao moralismo. O escândalo maior é o protagonismo. No meio de uma filmografia brasileira que sempre colocou mulheres como adorno, como corpo de fundo, A Mulher de Todos ergue uma mulher que domina tudo, que comanda a cena e que não se submete.

E é por isso que o filme não envelhece. É claro que A Mulher de Todos incomoda porque é caótico, mas mais ainda porque entrega a ela o controle. No cinema de Sganzerla, a desordem é política, mas é Helena quem dá rumo à anarquia. É ela quem transforma o caos em potência, a sexualidade em discurso e a marginalidade em poder. E mesmo hoje, décadas depois, é impossível assistir sem senti-la. E que bom que é assim.

Um grande momento
Resolvendo a espionagem.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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