Crítica | Festival

Mulher, Mulher

Marcas do tempo

Assistir a Mulher, Mulher hoje produz um desconforto que vai além daquele pretendido por Jean Garrett na época de seu lançamento. O filme continua interessante pela maneira como aborda o luto, o desejo e o lugar reservado às mulheres em uma sociedade machista. Há questões ali que permanecem atuais e que ajudam a explicar por que a obra continua despertando interesse mesmo passados quase 50 anos. Ao mesmo tempo, algumas imagens tornam impossível um mergulho tranquilo ao que está em cena. E isso coloca um problema que costuma aparecer sempre que obras do passado retornam às telas: como conciliar a importância histórica de um filme com o fato de parte da plateia de se sentir agredida por ele?

Lançado em 1979, o longa conta a história de Alice (Helena Ramos), uma mulher que tenta reorganizar a própria vida após a morte do marido, um psiquiatra que, mesmo ausente, continua determinando sua relação consigo mesma e com o mundo. Garrett encontra nesse processo um caminho interessante para discutir a condição da mulher, com o filme dialogando com um momento em que diferentes discursos sobre sexualidade e emancipação feminina ganhavam espaço no debate público. Alice carrega contradições, inseguranças e desejos que nem sempre encontram espaço dentro das expectativas construídas para ela.

A forma como o luto atravessa a narrativa se destaca. A morte não funciona apenas como acontecimento que coloca a trama em movimento, se transforma em presença constante, interferindo nas escolhas da personagem e na maneira como ela enxerga o próprio corpo e os próprios afetos. Há uma muita psicanálise na construção desse percurso. Garrett e Ody Fraga se interessam pelos mecanismos da memória, pelos desejos reprimidos e pela permanência de relações de poder que sobrevivem mesmo quando a pessoa que as exercia já não está presente. Isso confere densidade a um filme frequentemente lembrado apenas por sua vinculação à Boca do Lixo.

Também é difícil ignorar a crítica que a obra dirige aos papéis tradicionalmente reservados às mulheres. A principal manifestação desse controle está justamente na figura do marido morto. Mesmo ausente, ele continua organizando a vida de Alice, influenciando a maneira como ela se percebe e como interpreta os próprios desejos. O outro papel masculino, do advogado, aparece como uma extensão desse universo masculino que insiste (muito) em ocupar espaço. O filme expõe uma sociedade em que a experiência da mulher permanece submetida a estruturas de autoridade que sobrevivem até mesmo à morte. Ainda que se utilize de técnicas narrativas e visuais bastante ligadas ao cinema erótico produzido naquele período, Mulher, Mulher quer explorar as limitações impostas à sua protagonista.

E é justamente por isso que suas representações raciais causam tanto incômodo. Não porque sejam um detalhe isolado em uma obra de outra época, mas porque surgem dentro de um filme que, em diversos momentos, demonstra capacidade de perceber as estruturas de opressão. Basta olhar para a sequência envolvendo o cavalo e o caseiro para entender a dimensão do problema. Ao rever essas imagens em 2026, torna-se difícil aceitar a ideia de que basta classificá-las como produto de seu tempo e não exergar o que está por trás delas. O argumento histórico, obviamente, é importante. Filmes preservados ajudam a compreender mentalidades, valores e preconceitos de diferentes períodos, mas reconhecer essa importância não elimina os efeitos que determinadas representações continuam produzindo no presente.

Talvez a questão não seja decidir se essas obras devem ou não circular, pois a preservação audiovisual perde sentido quando passa a selecionar apenas aquilo que corresponde aos valores contemporâneos. O problema está em esperar. Apontar o caráter ofensivo de determinadas representações não quer dizer que se apoie o apagamento do filme, mas é importante lembrar que a experiência de assistir a uma obra também faz parte de sua circulação. Em outras palavras, preservar não pode significar ignorar aqueles que continuam sendo atingidos pelas violências que essas imagens carregam.

O retorno de Mulher, Mulher às telas traz à tona essa tensão. O filme permanece relevante por suas reflexões sobre o luto, o desejo e a condição da mulher. Ao mesmo tempo, expõe limites que não podem ser ignorados em nome da celebração. Talvez, uma das funções da preservação seja exatamente permitir que as obras continuem sendo vistas, admiradas, questionadas e até rejeitadas. Para que o passado, não absolvido, possa ser compreendido em toda a sua complexidade, inclusive nas violências que escolheu normalizar.

Um grande momento
O delírio do velório

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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