Crítica | Festival

O Ébrio

A popularidade do excesso

É interessante como O Ébrio leva a dor masculina a um grau quase operístico, transformando o sofrimento em performance. Gilberto, o protagonista do longa, sofre o tempo inteiro: porque ama, porque perde, porque cai, porque lembra… e a diretora Gilda Abreu nunca reduz esse sofrimento, optando por transformar a tragédia pessoal em espetáculo popular. A cada nova desgraça, a trama encontra mais uma forma de amplificar emoções, como se a tristeza existisse melhor quando compartilhada, cantada e encenada diante de uma plateia. Hoje, a lógica parece excessiva, mas é aí que está a graça do filme. O universo de O Ébrio é, assumidamente, o do melodrama levado às últimas consequências.

Quando chegou aos cinemas em 1946, a história não era nova. A canção gravada por Vicente Celestino onze anos antes foi destaque nas rádios e conquistou o país, além de também ter se transformado em peça teatral pelas mãos da própria diretora. O filme, portanto, nasce de um trânsito entre linguagens e, talvez por isso, confie tanto na potência de seus sentimentos. O público já conhecia aquele homem abandonado que buscava refúgio na bebida. Já conhecia sua voz, sua dor e sua desgraça. O cinema não surge para apresentar esse personagem, mas para lhe dar corpo, espaço e imagem, ampliando uma experiência que já fazia parte da memória afetiva de milhares de pessoas.

A nova restauração permite perceber que O Ébrio vai além de ser apenas um fenômeno cultural, mas é também um filme visualmente sofisticado. A profundidade dos enquadramentos, a riqueza dos cenários e o cuidado na composição das cenas revelam uma obra muito mais elaborada do que costuma sugerir sua fama de melodrama popular. Há uma dimensão material que reaparece agora em rostos, tecidos, sombras e ambientes que permite que se observe não apenas a história contada, mas a maneira como ela é construída. Mais do que devolver a beleza das imagens, a cópia restaurada possibilita olhar para o filme observando algo a mais.

Esse olhar leva à Gilda Abreu. Durante muito tempo, O Ébrio foi lembrado pela participação de Vicente Celestino, mas agora, a diretora ocupa o centro da discussão, com sua presença realmente percebida. Seja na forma como os espaços são organizados, na recusa ao naturalismo ou na escolha por uma encenação que preserva algo do palco sem abrir mão dos recursos cinematográficos. Em vez de esconder as origens teatrais, Gilda as incorpora ao filme. Os gestos são amplos, os olhares permanecem por mais tempo do que permaneceriam em um drama realista e as revelações chegam cheias de solenidade. Tudo no longa existe em função da intensidade.

Obviamente, Vicente Celestino ainda surge como uma figura quase mítica. Sua atuação pertence a outra tradição, distante da psicologia e da contenção que se tornariam dominantes nas décadas seguintes. Seu corpo e sua voz operam em registros diferentes dos que costumamos associar ao cinema de hoje em dia e não há qualquer tentativa de disfarçar o artifício. Quando canta, especialmente na sequência de “O Ébrio”, o personagem e o intérprete se confundem. O momento, aliás, concentra algo maior porque traz aquilo que já existia fora da tela. A música ali não interrompe a história, ela é a história.

O Ébrio continua despertando interesse oitenta anos depois porque vai além do registro de uma época e de seu retrato da cultura popular brasileira dos anos 1940. É um filme que permanece fiel à crença de que as emoções podem extrsavasar. O sofrimento de Gilberto não é discreto, e Gilda Abreu nem quer que seja. Ela prefere o excesso à medida, a canção ao silêncio e a exaltação à discrição. Encontrar O Ébrio novamente é reencontrar uma voz célebre, mas também olhar para uma cineasta que compreendeu como poucos a força do espetáculo popular e soube como transformar isso em cinema.

Um grande momento
“O Ébrio”

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Assinar
Notificar
guest

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

0 Comentários
Mais novo
Mais antigo Mais votados
Inline Feedbacks
Ver comentário
Botão Voltar ao topo