Crítica | Outras metragens

Odessa

Empatia manipulada

Atravessar uma montanha com a família, fugir da guerra, proteger uma criança. Durante boa parte de seus 20 minutos, Odessa parece interessado em conduzir o espectador por um caminho familiar de sobrevivência. Harald Swinkels acompanha um homem, a esposa e o filho cruzando os Alpes italianos logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Há fome, medo e a sensação constante de que o perigo pode surgir de uma hora para a outra. Apostando na empatia que essa situação, o curta constrói sua armadilha.

O título remete à suposta O.D.E.S.S.A. (Organisation der ehemaligen SS-Angehörigen), rede clandestina que teria ajudado integrantes da SS a escapar da Europa após a derrota nazista, utilizando documentos falsos e rotas de fuga que ficaram conhecidas como ratlines. Embora historiadores discutam até hoje a existência de uma organização centralizada com esse nome, o termo se tornou um símbolo das estruturas que permitiram que criminosos de guerra desaparecessem. Entre os nomes ligados a essas fugas está Josef Mengele, o médico de Auschwitz conhecido como “Anjo da Morte”, que escapou da captura e passou décadas vivendo na América do Sul.

Swinkels não revela imediatamente quem é aquele pai aparentemente dedicado. Pelo contrário, cada gesto de carinho com o filho, cada esforço para manter a família segura, empurra o público para uma identificação desconfortável. Aos poucos, pequenas pistas finalizam o quebra-cabeça. A revelação transforma retrospectivamente tudo o que foi visto antes e obriga o espectador a encarar uma questão perturbadora: até que ponto a empatia pode ser manipulada pela narrativa?

O mecanismo funciona porque Odessa compreende algo sobre a forma como a História costuma ser lembrada. Monstros raramente se apresentam como monstros, eles também são pais, maridos, vizinhos e pessoas capazes de gestos cotidianos de afeto. O curta usa essa contradição para provocar um mal-estar crescente, fazendo com que o público perceba que já estava torcendo por alguém cuja identidade altera completamente o significado da jornada.

Filmado em 35mm nas paisagens dos Dolomitas, Odessa transforma um episódio ligado às rotas de fuga nazistas em um exercício de percepção moral. Mais do que reconstruir um capítulo histórico, o filme pergunta por que algumas figuras continuam encontrando caminhos para escapar, seja da justiça ou do julgamento das pessoas que preferem enxergar apenas aquilo que lhes parece familiar.

Um grande momento
Descoberto

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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