Alex, o cozinheiro de um cargueiro, é encontrado morto em seu quarto e isso leva a uma investigação para descobrir quem poderia ter cometido o assassinato. Labrador – Autopsy of Silence se demora até a descoberta da morte e, de forma fragmentada, apresenta ao espectador seus personagens e as dinâmicas entre eles. A narrativa se estabelece em um ritmo próprio, que nem sempre consegue se manter estável, mas encontra segredos e ressentimentos. Nesse universo particular criado pelo diretor Rodrigue Jean, de pessoas confinadas em um espaço limitado, é possível observar a busca se transformando em projeção e insegurança.
Entre os tripulantes está Alupa Tulugak, mecânico inuíte que mantinha um relacionamento com a vítima. À medida que a investigação avança, sua posição dentro daquele grupo passa a torná-lo um alvo natural das suspeitas. O filme expõe com precisão a facilidade com que determinados corpos acabam ocupando o lugar do culpado. Não porque existam provas concretas contra eles, mas porque carregam diferenças que os tornam mais vulneráveis diante do olhar coletivo.
O isolamento do navio aumenta a tensão. Os corredores estreitos, com tudo muito igual; o frio constante e a impossibilidade de escapar do convívio forçam os personagens a compartilhar um espaço marcado por desconfianças crescentes. Nesse ambiente, preconceitos ligados à origem indígena de Alupa e à sua sexualidade se manifestam de maneiras nem sempre explícitas, mas estão constantemente presentes.
Ao mesmo tempo, a narrativa introduz outra figura fundamental para a compreensão do todo: a primeira-oficial Michelle Comeau. Sua relação com o cozinheiro ultrapassa os limites de um envolvimento amoroso comum e, temperada pela autoridade, ganha contornos obsessivos. Há nela uma necessidade de controle que contamina a forma como enxerga os acontecimentos e transforma a relação assediosa em algo próximo da fixação.
Jean opta por construir o suspense através de uma estrutura fragmentada, recorrendo frequentemente a flashbacks para distribuir informações ao espectador. O recurso batido e por vezes cafona, raramente surpreeende, mas cumpre sua função de manter a investigação em movimento. Trata-se de uma estratégia bastante conhecida do gênero, utilizada aqui de maneira funcional, embora previsível.
Mais discutível ainda é a insistência nas sequências de aparições da vítima. O filme parece desconfiar da força dramática que já existe na investigação e nas relações entre os personagens, recorrendo a imagens que procuram materializar traumas, culpas e desejos. Esse é o tipo de artifício que soa redundantes, especialmente porque os conflitos centrais já se mostram suficientemente claros sem a necessidade dessa intervenção.
Ainda assim, Labrador – Autopsy of Silence consegue sustentar o interesse ao longo de sua duração. Parte disso vem da forma como se utiliza de ferramentas de suspense e do drama de tribunal para revelar dinâmicas sociais bastante reconhecíveis. O filme mostra como certas escolhas e definições surgem quando é preciso apontar o dedo para alguém. E é nessa observação dos preconceitos que atravessam o cotidiano, muito mais do que nos mistérios que procura solucionar, que encontra sua dimensão mais relevante.
Um grande momento
“Eles nunca vão acreditar”


