- Gênero: Ficção Científica
- Direção: Steven Spielberg
- Roteiro: David Koepp
- Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Eve Hewson, Colman Domingo
- Duração: 145 minutos
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Entre os temas comuns da filmografia de Steven Spielberg está a vida fora da Terra e, em Dia D, o diretor retorna a ele com o mesmo entusiasmo da sua juventude. A premissa é típica: a humanidade não está sozinha e precisa lidar com as consequências emocionais, sociais e políticas dessa revelação. É um tema complexo que nem sempre encontra no roteiro de David Koepp essa complexidade. A trama por muitas vezes busca respostas confortáveis para suas questões, chegando quase a soar infantil em alguns momentos. Essa ingenuidade que pode soar datada para quem espera uma ficção científica mais ambígua ou provocadora, mas, ainda assim, é difícil não perceber que é pertinente quando se fala de Spielberg. O diretor continua acreditando na possibilidade de entendimento, de empatia e de esperança, mesmo no mundo em que vivemos.
Porém, além de suas características ideológicas, estamos falando de um dos mestres do cinema da atualidade. Se a trama do longa nem sempre sustenta o peso de suas ambições, a encenação compensa fragilidades pontuais. Spielberg segue sendo um dos grandes arquitetos da ação no cinema contemporâneo e algumas de suas sequências são construídas com muita certeza espacial, algo cada vez mais raro em produções que preferem a fragmentação frenética da montagem. Dia D comprova que o diretor sabe exatamente onde colocar a câmera, quando acelerar e, principalmente, quando parar para deixar o espectador observar.
Mais impressionante ainda é sua capacidade de criar imagens. Spielberg continua sendo um cineasta que pensa através dos planos. Há enquadramentos no filme que condensam emoções, relações e ideias sem a necessidade de uma única linha de diálogo. Sua compreensão da gramática cinematográfica é rara e, quando quer, ele é capaz de construir imagens que não apenas ilustram a narrativa, mas a ampliam, seja diante da grandiosidade dos eventos que movimentam a trama ou dos momentos mais íntimos.
Ao pensar em imagem, Dia D chega na mensagem e encontra sua conexão o presente. Vivemos cercados por cenas de guerras, massacres e deslocamentos humanos que circulam diariamente sem provocar a devida empatia. Spielberg parece interessado em recuperar essa capacidade de sentir. Ainda que numa alegoria alienígena, ele insiste em olhar para a experiência humana e para a possibilidade de reconhecimento do outro. Voltamos novamente à ingenuidade que é marca do diretor, mas chega a ser bonita essa insistência quando nossos tempos são marcados pela indiferença e falta de diálogo.
A incomunicabilidade, aliás, tem um papel bem marcado no longa. A linguagem surge como ponto de partida, quando Margaret, sem qualquer explicação aparente, começa a falar uma língua desconhecida. É quase uma espécie de manifesto sobre a necessidade de encontrar formas de conexão em meio ao estranhamento. Para além do fascínio do diretor pelo desconhecido, ali está a sua crença de que a comunicação pode surgir mesmo onde parece impossível.
O sentimento, como não poderia deixar de ser, vem pontuado pela trilha sonora, novamente assinada por John Williams. Embora sempre presente, ela surge menos retumbante do que o habitual, funcionando mais como companhia do que como guia emocional, e combina com o modo afetuoso com que Spielberg trata seus personagens. Mesmo diante de eventos capazes de alterar o destino da humanidade ou cenas frenéticas de ação, o cineasta está sempre interessado nas reações individuais e nos pequenos gestos de medo, curiosidade e encantamento.
Essa intimidade ocorre naturalmente com Emily Blunt e Josh O’Connor. Protagonistas do longa, os dois encontram o tom exato, evitando tanto o excesso de solenidade quanto a caricatura. Ambos compreendem a intenção do diretor e sabem a importância dos olhares, da hesitações e das pequenas reações. Conhecido também pela direção de atores, Spielberg é um diretor atento aos rostos e às emoções e encontra na dupla o que precisa para sustentar a dimensão humana da narrativa.
Ao fim e ao cabo, talvez Dia D esteja longe dos momentos mais inspirados da carreira de Spielberg, mas ainda impressiona, e tem bastante coisa a mostrar e a dizer. Se o roteiro simplifica demais algumas questões e a narrativa ocasionalmente parece confiar excessivamente no poder do encantamento, a qualidade estética spielbergiana está toda ali. Além disso, há algo valioso em observar um cineasta octogenário ainda movido pela mesma curiosidade e intenção que alimentavam seus filmes quase cinquenta anos atrás. Mesmo quando “tropeça”, Spielberg continua olhando para o desconhecido com os olhos de alguém que acredita na próxima descoberta e quer deixar a sua mensagem. Existe beleza nessa persistência.
Um grande momento
O trem


