Crítica | Cinema

O Drama

Entre o gesto e a culpa

(The Drama, EUA, 2026)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Kristoffer Borgli
  • Roteiro: Kristoffer Borgli
  • Elenco: Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Mamoudou Athie, Hailey Gates
  • Duração: 105 minutos

E quando a imagem do outro começa a falhar? Em “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, Roland Barthes observa que um detalhe mínimo pode manchar a figura amada até tomar conta de tudo. Um gesto, um traço, um hábito. Aquilo que antes passava despercebido cresce, insiste, contamina. A imagem não se rompe de uma vez. Ela vai sendo corroída até virar engulho.

O Drama, de Kristoffer Borgli, é mais radical, mas se instala exatamente nesse processo. Emma e Charlie, vividos por Zendaya e Robert Pattinson, estão às vésperas do casamento quando uma revelação desorganiza tudo. O passado atravessa o presente e a ideia que um faz do outro começa a se perder. O filme se interessa menos pelo acontecimento em si do que pelo que ele desencadeia. O olhar muda, e com ele muda também a forma de existir dentro da relação.

O que se coloca em jogo aqui não é o que se imagina a partir do fato. Comparações entre atos e intenções, como os de Rachel e Emma, estão por todo o longa e, mesmo que haja uma diferença concreta entre agir e imaginar agir, Borgli quer tensionar esse limite. A dúvida não se resolve porque o pensamento passa a ter peso de ação e o julgamento se desloca para esse terreno ambíguo, onde desejo, possibilidade e realidade se misturam.

Nesse cenário, Charlie se revela cada vez mais difícil de sustentar. Robert Pattinson constrói um personagem que reage de maneira destrambelhada e que, mesmo antes, busca meios para não lidar com a própria insegurança. Há algo de reprovável nas atitudes dele, e o filme não tenta aliviar. Ao contrário, insiste em comportamentos erráticos e conflituosos até expor o quanto eles também fazem parte da engrenagem da relação.

A instabilidade se reflete na construção das interações. O roteiro trabalha com deslocamentos de percepção, fazendo com que cada conversa carregue mais de um sentido ao mesmo tempo. Enquanto o outro deixa de ser presença e passa a ser hipótese, Emma precisa lidar com a distância entre aquilo que sabe de si e aquilo que o outro consegue aceitar. O amadurecimento que o filme sugere nasce desse atrito, desse confronto direto com a complexidade do outro.

Formalmente, O Drama encontra soluções interessantes durante boa parte do tempo, com cortes rápidos que ajudam a criar um estado de alerta constante e a aposta na repetição como forma de tensão. Situações retornam, ideias reaparecem, o som insiste. A experiência se estabelece nesse movimento, como se os personagens estivessem presos a um pensamento que insiste.

Som e trilha acompanham a construção, mantendo o incômodo ativo sem torná-lo excessivo. O filme tenta dar forma a esse emaranhado de culpa, desejo, paranoia e autoimagem e, em vários momentos, consegue. Em outros, pesa a mão. A tentativa de impressionar se torna evidente, e o mecanismo aparece mais do que deveria. Ainda assim, nunca chega a comprometer completamente.

Embora a presença de Alana Haim seja forte, Zendaya e Pattinson seguram o filme com uma combinação muito eficiente de magnetismo e desconforto, ajudando a manter vivos personagens que poderiam ter virado simples peças de um experimento conceitual. E o melhor de O Drama está justamente na recusa em facilitar o sentimento; o amor e a paixão aparecem atravessados por medo, projeção, curiosidade mórbida, ego e desejo de controle. Julgar o outro, nesse contexto, também é uma forma desesperada de tentar organizar o caos.

O Drama talvez queira abarcar mais do que consegue, talvez force algumas notas quando já bastava confiar no mal-estar que construiu, mas se mantém por entender uma coisa fundamental: a intimidade raramente sobrevive intacta ao contato com a verdade, e quase nunca sai ilesa daquilo que cada um inventa sobre o outro. Já dizia Barthes que quando a mancha se revela, o invólucro da devoção se rasga. Eis então o horrível refluxo da Imagem.

Um grande momento
A reunião com a fotografa depois da revelação

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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