Crítica | CinemaDestaque

O Beijo da Mulher Aranha

A delicadeza da falta

(Kiss of the Spider Woman , EUA, MEX, 2025)
Nota  
  • Gênero: Musical
  • Direção: Bill Condon
  • Roteiro: Bill Condon
  • Elenco: Tonatiuh, Diego Luna, Jennifer Lopez, Bruno Bichir, Josefina Scaglione, Lucila Gandolfo
  • Duração: 125 minutos

Uma obra que nasce como livro, vira peça de teatro, transforma-se em filme, volta para o teatro em versão musical da Broadway, e por fim mais uma vez retorna aos cinemas, dessa vez em encarnação cantada e dançada. O Beijo da Mulher Aranha criou iconicidade em torno de seus personagens, sua temática e sua abordagem corajosa da homossexualidade masculina em tempos ditatoriais. Há 40 anos, o público maior conheceu a primeira encarnação cinematográfica, indicada a 5 Oscars (incluindo melhor filme e direção, para o nosso Hector Babenco), outorgando um unânime troféu para William Hurt. Dessa vez, todas as discrepâncias de gênero – e que passaram despercebidas pela ordem da época – foram reorganizadas, e o filme renasce sob o acertado signo da representatividade, além de tentar impressionar em suas decisões estéticas. 

O grande problema da nova versão de O Beijo da Mulher Aranha não é exatamente ser uma adaptação do musical da Broadway inspirado pela obra de Manuel Puig, mas essencialmente não ter conseguido o capital necessário para a empreitada. Explica-se: o filme é uma produção independente, com valores de cinema indie de verdade – custou 30 milhões de dólares, o que já o justificaria como proponente aos Independent Spirit. A situação é traduzida no filme de maneira clara, em como a mise-en-scene é mais acanhada do que deveria, no excesso de close-ups e no modelo restrito de planos. Estamos falando de um filme do gênero musical, ou seja, a opulência precisa ser permeada no todo, ainda quando as produções não são tão abastadas quanto deveriam. Isso é refletido na estrutura da produção, que não consegue decidir-se entre algo intimista ou encarar suas possibilidades de orçamento, aplicando criatividade no centro. 

Agora, vejam só: Bill Condon, o roteirista de Chicago, é o diretor dessa nova versão de O Beijo da Mulher Aranha, tendo também outras experiências com o musical, como a direção de Dreamgirls. Aqui, no entanto, as coisas se saem melhor que em sua andança anterior no gênero, que deu um inevitável (embora injusto) Oscar para Jennifer Hudson, e que não conseguiu resolver suas questões para além de uma antiquada burocracia. O problema maior aqui é a falta de recursos, que impede o filme de ganhar estofo estético e impossibilita os maiores voos de um diretor que também venceu um Oscar, pelo roteiro de Deuses e Monstros. Quando o baixo orçamento permite, ele cria algo magnífico como a sequência de sonho de Molina nas escadarias, junto ao maior corpo de baile do filme em uma determinada cena. Nesse momento, o filme parece que vai conseguir acessar espaços superiores; pensamentos vãos. 

Se os esforços de Condon são insuficientes para conduzir nossos interesses para além de uma representação agigantada, o que é feito no fim das contas, cabe no lugar do lúdico que um musical se propõe – e aí, de uma maneira atabalhoada, até cabe. Ou seja, O Beijo da Mulher Aranha é um filme que vai nascer (precisando contar com nossa boa vontade) mediante do que Molina relata, e que é a chave para a fantasia. Apenas no contexto fantástico permitido pelo gênero, é que temos uma gradação acertada do que é feito em cena. De maneira curiosa então, talvez esse seja um dos raros casos onde um musical precisou se entender como pequeno, para que o sentido estético da produção conduza os resultados a algo que converse com os resultados. 

Na frente do palco, temos o trio de atores centrais, repetindo as equivalências de versão de 1985. Jennifer Lopez empolga com sua versão absolutamente performática da personagem bem mais tímida vivida por Sonia Braga; no palco e aqui, a personagem foi reconfigurada e aumentada. Dessa maneira, Lopez fornece o arsenal de possibilidades que uma bela artista pop como ela pode fornecer – serve tudo em canto e dança, é uma entertainer de primeira. Diego Luna revive o tipo de Raul Julia com menos intensidade, e uma sensibilidade mais aflorada; se a interpretação perde em presença, ganha em delicadeza, ainda que não saibamos se é exatamente isso que Valentin pede. E chegamos a Molina, imortalizado por Hurt e aqui reencarnado no jovem Tonatiuh, e o personagem continua sendo a força-motriz da obra, e fornecendo a seu intérprete as ferramentas necessárias para o domínio absoluto. Sem a tonalidade que o astro de O Turista Acidental forneceu, Tonatiuh é a escolha mais acertada para essa versão absolutamente latina do que Puig escreveu. Sua presença transforma tudo em artefato mais adequado, sua voz é linda e abrangente, e sua performance é magnética; em um ano de competição menos fortalecida, seu lugar em premiações estaria mais garantido. 

De uma maneira graciosa, é a própria interpretação de Tonatiuh quem garante a O Beijo da Mulher Aranha uma cobrança mais tecnicamente conectada com o que é apresentado. Existe força nesse homem que é usado de todas as formas, mas que consegue construir uma relação de amor com a arte, sem abrir mão do próprio desejo. Dessa singeleza que o ator pinta, é que Condon consegue moldar melhor sua produção para um lugar de maior questionamento do indivíduo, e menos do coletivo. Que essa nova versão esteja saindo em tempos tão políticos, onde o posicionamento e as interferências de grandes potências ainda movem o rumo de países dependentes, é uma marca de um período onde o Cinema precisa se declarar. Não cabe mais ser apolítico hoje, e talvez não caiba em uma obra tão questionadora a respeito das ditaduras pelo mundo, se feche em uma celebração artística – em um filme que não consegue mostrar em esplendor nem isso. 

O grande tônus da nova versão de O Beijo da Mulher Aranha é ter conseguido compreender as sutilezas dos extratos sexuais colocados em cena, com escalações acertadas e escolhas de abordagens em dia com o nosso tempo. O grande erro dessa mesma versão é relegar o peso político de uma história essencialmente política a esse aspecto tão restrito, esquecendo que qualquer ditadura quebra um sem número de possibilidades individuais, ou seja, é um tema que volta a crescer diante do aumento de vozes da extrema direito nos lugares mais altos do poder. Quando escolhe-se apenas um lado político de uma obra, tal reducionismo tende a apagar inclusive o que foi um acerto; Condon corre esse risco, e o resultado é o que se vê – um marcante animal enjaulado.

Um grande momento

A escadaria 

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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