Crítica | Streaming

O Guia da Família Perfeita

Pais, filhos e seus dilemas

(Le Guide de la famille parfaite, CAN, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Ricardo Trogi
  • Roteiro: François Avard, Jean-François Léger, Louis Morissette
  • Elenco: Louis Morissette, Emilie Bierre, Catherine Chabot, Xavier Lebel, Isabelle Guérard, Gilles Renaud, Louise Portal, Alexandre Goyette, Jean-Carl Boucher
  • Duração: 102 minutos

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Quando temos filhos muitas coisas começam a assustar…
Mas deixar cair, se machucar e aprender a levantar é parte essencial da vida. Uma comédia trágica como o é a vida de tantas mães e filhas, pais e filhos que tentam encontrar o difícil equilíbrio entre amor e disciplina. Essa é O Guia da Família Perfeita, produção de Quebec original Netflix.

Ele vai por uma linha um tanto divergente da sua premissa, onde as pressões das redes e da sociedade não são maiores do que as introjetadas pelo pai da família, Martin, que pressiona a filha mais velha, Rose, já que ela é sua “campeã” e orgulho ao mesmo passo em que culpa a nova esposa Marie-Soleil pelas birras do caçula.

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O Guia da Família Perfeita

Porque Martin enxerga a família como um time, talvez, de hóquei — o esporte mais popular no Canadá — e não sem razão, Rose é goleira num time da escola, estuda inglês e só tira notão, inclusive em matemática. Mas, progressivamente, O Guia da Família Perfeita vai, entre os flashes dos celulares dos pais (ao som do hino da vitória, da trilha de Vangelis para Carruagens de Fogo) que se engalfinham para ter o melhor ângulo na formatura da alfabetização ou que justificam as dificuldades de aprendizagem com diagnósticos precoces de TDAH, reafirmando aquela tese dos terapeutas psicanalíticos de que filhos e filhas espelham não só comportamentos como frustrações.

Abrindo e encerrando com imagens das crianças e adolescentes produzidas por terceiros, engloba a mania, o modo como sempre filmamos e fotografamos nossos filhos — gerando um acervo audiovisual nem sempre autorizado. Esquecendo que, como John Lennon certa vez cantou, “Amar é perguntar”. E o que Martin e tantos outros pais e mães em O Guia da Família Perfeita e também do lado de cá da tela quase sempre fazem é impor. Mandar. Determinar. E se as suas expectativas supridas forem, premiar.

O que nem Freud foi capaz de elucidar, porém, foi como evitar que nos filhos aflorem tendências narcisistas? Como evitar o desequilíbrio entre criar uma criança que acabe ficando mimada ou aparentemente autossuficiente ainda que carente? As aparências da felicidade conjugal desfeita pela criança interrompendo o coito ou a adolescente que sucumbe à pressão e tenta se suicidar são os dois lados de uma moeda que não para de girar na mente dos pais. Que tentam acertar enquanto erram diariamente na medida das coisas.

O Guia da Família Perfeita

E é na tentativa de preencher toda a cartilha hollywoodiana dos filmes sobre famílias disfuncionais — com direito ao clássico momento no divã onde o terapeuta jorra clichês –, com pais tentando criar da maneira que podem filhos na infância e na adolescência que o Guia da Família Perfeita tropeça e tropeça feio. Perde a organicidade que poderia ter se optasse, desde o início, em refundar a relação, até com direito a trazer algo do passado, entre pai e filha (que é a história principal) ao invés de tentar abarcar todos os conflitos entre os quatro integrantes do núcleo familiar, mas sem trazer ferramentas narrativas e desenvolvimento suficiente para o restante dos personagens.

Uma discussão entre Martin e Rose, não mais limitada às quatro paredes da casa onde vivem, mas sim irrestrita nas dimensões grandiosas de um lago, torna aparente esse erro de percurso. Um cena pequena que traz em si um potencial um tanto que perdido, deslocado. Quantos filhos sentem que não fazem nada direito, que são fracassados quando os pais não são coniventes nem buscam ter uma conexão genuína com eles? Esse delicado equilíbrio entre acompanhar de perto o desempenho escolar, querer saber da vida e fazer parte estabelecendo a diferença entre ser mãe e não amiga — ao mesmo tempo se vendo soterrada de afazeres, exausta e tendo que se manter bem fisica e mentalmente (como em certo momento desabafa Marie-Soleil).

O Guia da Família Perfeita

“Quando alguém me chama de campeão eu não me sinto insultado”

Na prática, conversar ao invés de punir, fazer perguntas ao invés de dar ordens é o caminho do bem viver e da paz entre pais e filhos. Num filme, o clímax de uma história familiar condicionada por um evento trágico ou extremo pode ser a condição da mudança; mas na vida, é um alerta para a reflexão e para pensar outras formas de virar o jogo em casa. Porque a “ansiedade por desempenho” do qual trata O Guia da Família Perfeita é real. Se o mundo assombrado por pandemia e governos fascistas se torna pesado para os adultos, para crianças e adolescentes a sobrecarga é maior por eles não terem as ferramentas para lidar. O medo de decepcionar e fracassar incutido por Rose encontra aderência no dilema de tantos jovens, imersos nas redes sociais para não precisar lidar com os problemas reais.

“Falar pode ser mais simples do que de fato fazer”

O filme de Ricardo Trogi carece, sim, de algum refinamento estético e atuações mais fortes — Louis Morisette está apenas mediano como o pai e protagonista — porém deve ir muito bem na plataforma ao tentar sintetizar em uma hora e quarenta de projeção que o que nossos filhos vão se tornar é problema totalmente deles e não algo que reflete a forma como nós, mães ou pais, exercemos a maternidade/paternidade. Não é uma tentativa de criar uma pessoa melhor do que nós, sem as feridas e falhas mas sim uma pessoa por si só. E isso (também) significa amar.

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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