Crítica | Streaming e VoD

O Mundo Depois de Nós

(Leave the World Behind, EUA, 2023)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Sam Esmail
  • Roteiro: Sam Esmail
  • Elenco: Julia Roberts, Mahershala Ali, Ethan Hawke, Myha'la, Farrah Mackenzie, Charlie Evans, Kevin Bacon
  • Duração: 133 minutos

Existem muitas vozes querendo ser ditas e ouvidas dentro de O Mundo Depois de Nós, estreia de hoje na Netflix cercada de expectativa. Pelos nomes do elenco, por ser a adaptação de um livro estimado, pela direção de um nome relevante em séries de tv, o streaming esse mês estará também nas mãos desse título. O resultado apresentado vai além do satisfatório, justamente por conta das marcações políticas e sociais que o roteiro apresenta em tão curto espaço de tempo. Muitas das coisas são colocadas nas entrelinhas e por isso merecem ser consideradas dentro do campo das qualidades, enquanto tantas outras ocupam lugar que poderia ser sanado por mais e melhores revisões de seu texto, mas não há dúvida que trata-se de uma produção surpreendente. 

Sam Esmail tem uma carreira curiosa, tanto na televisão quanto no cinema. De um lado estão Mr. Robot e Homecoming, e do outro Eu Estava Justamente Pensando em Você, e essas três obras, que não se comunicam entre si, encontram a união de suas forças em O Mundo Depois de Nós. O diretor adapta a obra de Rumaan Alam, que sozinha já propunha uma visão sobre algum tipo de apocalipse contemporâneo, mas que encontra nas relações mundanas de hoje um olhar comprometido com o debate. Sua colocação enquanto autor é observar a corrosão que se alastrou no interior dos núcleos, e ele realiza essa situação com um tom claustrofóbico e vertiginoso, que se desenha como uma explicação básica para os vários níveis de distanciamentos, antes e depois da pandemia. Lançado em 2020, o livro de Alam lia o caos que vivemos por quase três anos como uma forma de expiar nosso horror interno, e que também ele refletia nós mesmos. 

Em cena estão duas famílias, uma branca e outra preta. O Mundo Depois de Nós, às vezes mais sutil e outras vezes menos, cria um abismo entre esses dois núcleos e vai ampliando suas diferenças a cada novo discurso de Julia Roberts, uma mulher com os dois pés na misantropia. O que essa personagem, Amanda, não esconde é o fato de que seu discurso a aproxima de muitas pessoas que estão nas redes sociais, e algumas delas nós tratamos pessoalmente. Uma de suas frases iniciais (‘a verdade é que eu odeio todas as pessoas’) mostra como ela está exasperada com seu entorno, e a fuga para o isolamento controlado lhe parece o ideal; quando isso não for mais uma escolha, Amanda passa a questionar seus instintos. 

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A maneira como Esmail filma seu tratado sobre a blindagem não-compulsória ao esbarrar na obrigatoriedade é sempre curiosa, porque o diretor definitivamente não age com sossego em cena. Pelo contrário, O Mundo Depois de Nós abusa dos recursos para nos colocar da maneira mais tátil possível dentro de um estado de desespero, desconhecimento e pânico posterior. Para tanto ele libera o eixo da câmera e a demove de qualquer obrigação estática: tentando encontrar os limites para as linhas matemáticas do plano, estamos na presença de uma montanha-russa em matéria de fotografia. Tudo está desconectado da realidade, e para tal fim a câmera gira 180 graus constantemente, sai de uma posição e nos carrega para dentro desse caleidoscópio de enquadramentos, onde a ideia é descolar o espectador de uma zona esperada. 

A discussão é menos sobre as consequências que aprisionaram essas famílias na mesma casa e mais sobre sobre interrelações pessoais e a maneira amarga com o qual entramos em uma seara particular. A forma como se olham Amanda e Ruth, e como expandem seu desconforto uma com a outra sugere uma opressão que historicamente não cessa, nem em momento limite. A mesma paranoia com a qual convivemos em qualquer instância, que nos força a manipular culpados dentro de cenários sem crime, O Mundo Depois de Nós não isenta ninguém de culpas diversas – a passividade dos brancos diante de um horror próximo, travados pela presunção de uma salvação automática que obviamente virá, de acordo com alguma lógica que os protege. Essa também é uma visão determinante sobre a causa de sua prostração em qualquer outro cenário, que o filme banca sem qualquer cerimônia. 

Com um elenco bárbaro que conta com, além de Roberts, inspirados Mahershala Ali e Kevin Bacon, e um Ethan Hawke em estado de graça, que assume suas deficiências diante da morte iminente e coloca em perspectiva a inoperância do homem branco. Diante de muitas possibilidades de desaparecimento hoje, O Mundo Depois de Nós não diz apenas que somente a união resolverá suas questões, mas termos a consciência ligada à solução, e não ao problema. Estando refém de preconceitos, travada de atitudes assertivas ou anestesiada por doses de dopamina ininterrupta, a sociedade que se diz dominante está entregue ao que há de pior nas características humanas. O ponto de colisão acontecerá quando eles perceberem que suas fraquezas já os trancafiou em estereótipos, ou quando resolverem seguir a lógica e sair da letargia. Para o amor ou para o prazer. 

Um grande momento

O engarrafamento

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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