Crítica | Catálogo

Tantas Almas

Sendo correnteza

(Tantas almas, COL, BRA, BEL, FRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Nicolás Rincón Gille
  • Roteiro: Nicolás Rincón Gille
  • Elenco: José Arley de Jesús Carvallido Lobo, Carlos Enrique Avila Argota, Maria Amanda Vargas Barbosa
  • Duração: 137 minutos

É tão raro observarmos a estreia de um título pertencente ao “cinema de fluxo” em nosso circuito, que o simples fato da chegada de Tantas Almas às nossas cercanias, deveria vir obrigatoriamente cercada de comemoração per se. O fato de ser uma obra colombiana, em co-produção conosco, é outro detalhe que merece ser tratado com a galhardia que a ocasião merece. Que, para além dessas considerações factuais, o título em questão também reverbere questões políticas que infelizmente não adormeceram, e o resultado dessas influências esteja de maneira cristalina na tela, é sinal de uma maturidade coletiva, do cinema em questão que já chega repleto de beleza cuidadosa e do nosso circuito, tão constantemente (e merecidamente, pelas pataquadas que arma) atacado, mas que ainda é capaz de nos entregar duas horas e dez minutos de outro tempo cênico. 

O roteiro e a direção da produção estão a cargo de Nicolás Rincón Guille, documentarista que estreia em longas de ficção com uma carga preciosa e que o cinema não outorga com facilidade: a verdade. Sem diminuir o cinema de gênero, que lida com artífices particulares e encontra méritos que nada debatem com o que acontece aqui, essa toada impressa pelo seu autor é própria do que constitui as molas de cineastas tão díspares quanto Patricio Guzmán, Eduardo Coutinho e Jean Rouch, que conseguem reconfigurar imagens a respeito de um retrato social específico para construir um cinema de sensações pouco fugazes. Estar com o olho conectado no que foi produzido por esses mestres é ter a certeza de que estamos recebendo de volta, no sossego da poltrona, a mais exata representação do que foi captado – e entendendo que a ficção e o documentário, embora muitos ainda não considerem, trafegam muito mais próximos que imaginamos. 

A inteligência emocional de Guille constrói um filme que absorve os conceitos de fluxo e se passa… em correnteza livre, através da observação espacial que o protagonista atravessa, pelos rios que corre em busca dos corpos dos seus para enfrentar os corpos dos outros. José só precisa encontrar os filhos desaparecidos em meio a onda assassina de 20 anos atrás, onde grupos paramilitares (também conhecidos como os nossos milicianos) promoveram o horror em regiões ribeirinhas, matando lideranças insurgentes e meros camponeses, como forma de manter seu poderio. O filme desenvolve essa figura do pescador como o ser capaz de reencontrar nas águas mais do que a própria sobrevivência, mas um sentido perdido pelo horror da opressão. Sua força pessoal se transforma em luta coletiva ao perceber que está em seu caminho destituir das águas seu símbolo de morte. 

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Existem então duas formas de lidar com a correnteza, como a própria imagem do filme produz. Lutar contra elas para enfim criar uma nova representatividade libertária, livrando do julgo que o Poder impõe à natureza e trazendo a configuração original de volta ao seu estado permanente. E transformar-se, recriar o próprio corpo, como massa de correnteza individual, reproduzindo ao seu redor um movimento de limpeza constante do que a violência incessante não cansa de produzir. Quando Guille filma então o movimento constante de seu protagonista indo de forma contrária ao que está em sua direção, ele trava em sua própria arte um caminho de reprodução restitutiva do estado das coisas. Não haverá mais morte, haverá um espaço libertador de torturas e de cercas, para examinar então o que a ditadura furta da humanidade, e o que está em jogo na hora de enfrentá-la. 

José é o responsável por então trazer uma nova observação sobre o que está sendo representado em Tantas Almas; ele não aceita que seja decidido por ele, e toma para si a força reconstrutora de normas. Ele as desfaz, para delas tornar a surgir o impulso de vida. Pulsa resistência a cada vez que encontra uma nova alma perdida e devolve história a elas, seu corpo nunca parece tão cansado quanto seu emocional. Na massa física está a resistência do que nos é imposto, ainda que o abatimento interno peça o mesmo descanso que foi legado aos desaparecidos. O que Guille monta metaforicamente é como aquele homem de feições impenetráveis está mais uma vez, a cada nova vez, reintroduzindo em si a vida que seus filhos podem ter perdido. Achar, ainda que inconscientemente, cada um daqueles corpos pelo caminho das águas, é reencontrar um sentido de reconexão de toda uma sociedade ameaçada pelo desconhecido. 

O trabalho de Guille é de então metamorfosear o tempo, reivindicando através de um corpo que corre às margens das estruturas, o direito ao reconhecimento social, à vida além da subsistência. Tantas Almas, de maneira silenciosa, é uma costura que sobrevive ao que é centralizador, o tal cinema de massas. Está em toda a manutenção de José através de seu trajeto uma impressão de libertação constante, que se desprende do que deveria ser o lugar que lhe é cabido. O autor e o protagonista se unem pela visibilidade do que está sendo diariamente chacinado, em campo social e em campo cinéfilo. A contemplação também é uma forma de sobrevida, mas dentro dela sempre se esconderá a fúria da mudança, tornando-se visível ou não. 

Um grande momento
O rio de corpos 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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