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Top Gun: Maverick

A mensagem na garrafa enviada pelo cinema

(Top Gun: Maverick, CHN, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Joseph Kosinski
  • Roteiro: Peter Craig, Justin Marks, Ehren Kruger, Eric Warren Singer, Christopher McQuarrie
  • Elenco: Tom Cruise, Val Kilmer, Miles Teller, Jennifer Connelly, Jon Hamm, Glenn Powell, Monica Barbaro, Lewis Pullman, Charles Parnell, Bashir Salahuddin, Jay Ellis, Danny Ramirez, Ed Harris
  • Duração: 131 minutos

Mediante às mudanças que o audiovisual enfrenta ao longo dos últimos 20 anos, da crise que muitas vezes é apregoada ao setor, e que efetivamente se mostra pertinente de tempos em tempos, uma pergunta ressoa mais forte diante de novos fenômenos midiáticos que se prevêem como representantes da divisão: que cinema sobreviverá ao tempo? Sobre que bases será representada a máquina industrial que gere uma fatia considerável do que é considerado “arte” no mundo pós-contemporâneo? Top Gun: Maverick se situa como um sobrevivente de outras eras, envolvido em contradições: tanto deseja lutar bravamente contra conglomerados de aspecto visual escalafobéticos em meio à narrativas cada vez menos inspiradas, quanto recorre a uma possível fonte saudosista para atender aos feitos que inspira e produz; é a um só tempo uma resposta de que o arcaico é a saída para o futuro, o que pode, a princípio, induzir a um erro de leitura. 

John Kasinski, seu diretor de aparência exclusivamente contratual, impregna em seu longa uma substância cara ao cinema, matéria-prima do que foi construído para gerações modernas (e quiçá futuras) se debruçarem: é de carisma que as coisas são feitas. Quando escrevo sobre o valor que essa fascinação irresistível impõe a uma produção, não me atento ao que pode ser absorvido somente a título da nostalgia básica que está obviamente atrelada a um produto que nasceu 36 anos antes. É do básico constituído mesmo, e que talvez tenha proporcionado grande parte da essência do original, que é uma espécie de mitologia em descrença no universo cinematográfico. O que o inexplicável sucesso de Top Gun nos legou ao longo das últimas quatro décadas é do inquestionável poder de atração que o sorriso de um astro (aqui, de um dos maiores da História do Cinema) ainda pode causar, a priori. 

Top Gun: Maverick
Scott Garfield/Paramount Pictures

Para adentrar nessa seara aparentemente esdrúxula e pouco cinestésica de argumentação, Top Gun: Maverick se entende como um dos “cantos do cisne” sob a qual o Cinema, eventualmente, precisa para seguir em rota de entendimento generalizado. O diálogo que acontece entre Tom Cruise e Ed Harris logo no início da produção é um atalho para a elaboração da gênese do seu tratamento. Harris é o representante da “lei do menor esforço” com a qual o cinema se apresenta hoje, esteja ele em grande ou pequena escala – mas é lógico que o foco predominante é a base do que conhecemos como entretenimento “made by Hollywood“; Cruise é um dos últimos sobreviventes (e com certeza o único ainda rentável, ainda que eternamente às custas da reimaginação, ainda que esse seja um processo injusto de nomear simplesmente assim) de um tempo, onde grandes nomes faziam um filme, salvando carreiras e estúdios. Mas também isso é reducionista sobre o que estamos tratando. 

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Não apenas os grandes nomes hoje estão sozinhos no mundo (a despeito do que, vez por outra, consegue uma Sandra Bullock em Cidade Perdida), sem a garantia que outrora os sustentou, como o Cinema como nossa infância e adolescência conheceu a cada dia que passa segue rumo ao desaparecimento. O que essa citada cena de embate mostra é a luta pela sobrevivência do “artesanal” – obviamente com aspas, estamos falando de um longa com caças supersônicos, batalhas aéreas e explosões fantásticas, e não do novo longa de Ken Loach – dentro do modelo (super)manufaturado que Hollywood cada vez mais entende como única forma de apreciação popular rentável. E o que seria a artesania do qual o longa lida? Em um mundo bombardeado por Marvel, Transformers, adaptações em live action, em um ano especificamente ansiado por uma nova aventura envolvendo seres azuis extraterrestres construídos à base de computação gráfica sem registro de superfície humana a olho nu, Top Gun: Maverick é o equivalente à vitória de um grupo de marceneiros frente a um poderio bélico. 

Top Gun: Maverick
Scott Garfield/Paramount Pictures

Estamos tratando ainda de uma superprodução de 150 milhões de dólares gerida pela Paramount Pictures, o que nos leva mais uma vez ao grupo de contradições já reconhecidas, mas é a manufatura de cada elemento que envolve seu acabamento. É a qualidade das microrrelações que são estabelecidas aqui, ainda que boa parte delas nascidas a partir do vazio título que lhes deu origem. Essa energia saudosista que emana da tela não é completamente regida por seus personagens, pelo corpo dos atores em cena, pela explosão de energia que exala de cada reverberação contínua, mas pela hipótese que o filme compra, de esfacelamento de uma ideia de cinema promovido por pessoas, com pessoas e para pessoas, em detrimento a uma máquina descerebrada que reproduz planos e “decisões criativas”. O que emerge de cada cena aqui é uma vontade muito própria de conferir credibilidade ao mais absurdo movimento, por aparente que seja, não apenas por parte de seu grupo de atores como do grupo de profissionais técnicos que constroem a excelência do que converge em audiovisual, aqui. 

Seja no campo que compete ao oscarizado fotógrafo Claudio Miranda (de As Aventuras de Pi) ao pensar as imagens de cada sequência e sua iluminação particular – a primeira sequência aérea de Cruise é nunca menos que sublime – sempre resolvendo as referências oitentistas sem se deixar levar por elas, entendendo as possibilidades do hoje; seja a equipe sonora do filme, disposta a provar uma competência em sua área em graus estratosféricos, conferindo mixagem perfeita a cada um dos elementos dispostos em cada plano, daquelas coisas impressionantes demais para deixar de reparar. A montagem de Eddie Hamilton, responsável pelos últimos Missão: Impossível, revelam também um ritmo que nunca resvala em pieguice diante das mudanças de tom para o melodrama que um filme que busque suas molas em outrora poderiam ter. Na verdade, tudo que é melodramático e não funciona em Top Gun: Maverick é o que foi construído apenas para essa produção, ou seja, o romance entre Maverick e Penny, absolutamente deslocado do restante. 

Top Gun: Maverick
Scott Garfield/Paramount Pictures

Ao contrário dessa invasão romântica dispensável, o filme explora com a competência de seus atores relações táteis entre seres humanos. Miles Teller tem belos momentos tanto dividindo espaço com Cruise como com Glen Powell, ainda que seus contatos não passem de reproduções de muitos movimentos de Top Gun. Todas as muitas vezes onde Maverick é informado da ausência de perenidade de sua função, como piloto mas também como o astro que sabemos que ele é, Cruise consegue entregar tudo que se espera de cada momento, e unir o emocional desejado ao sentimento de desapego ao qual um cinema menos dotado de pixels precisa enfrentar hoje, frente à significância de seu futuro incerto. Em meio a sapiência de uma derrota iminente, um filme como Top Gun: Maverick e a forma como ele desenvolve os reais conflitos de sua narrativa metafórica, é a prova de que esse embate está em constante retomada, e seu desfecho é muito menos representativo de um heroísmo tradicional cinematográfico e mais de uma vitória frente ao adverso mundo digital a que o cinema blockbuster está atrelado.

É, ao fim, incrível que uma ideia tão simples e até primária a respeito de amizade, companheirismo e até algum ufanismo soem absolutamente libertadores para a construção de um pensamento a respeito do futuro, entrando em choque com as outras. É como se a todo momento o filme dissesse que a resposta para um novo futuro não está necessariamente no revisionismo histórico, mas em resgatar uma simplicidade diante do psicodélico que profissionais como Kevin Feige entendem como sinônimo de eficiência no cinema de 2022. Não é uma volta às raízes do fazer cinema, esse precisa evoluir como mostra a primazia técnica exibida a cada fotograma aqui; é uma volta ao que tornará as experiências vívidas e menos mecânicas, para longe dos voos interestelares de super heróis invencíveis. Basta olhar o sorriso de Tom Cruise, e qualquer efeito especial se dobra ao que de mais poderoso o audiovisual pode produzir, o encantamento com a emoção primordial. 

Um grande momento
O encontro de velhos amigos 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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