Crítica | Streaming

Vestido Maldito

Um irônico delírio psicossexual

(In Fabric, GBR, 2018)

  • Gênero: Terror, comédia
  • Direção: Peter Strickland
  • Roteiro: Peter Strickland
  • Elenco: Sidse Babett Knudsen, Marianne Jean-Baptiste, Julian Barratt, Steve Oram, Jaygann Ayeh, Richard Bremmer, Deborah Griffin, Fatma Mohamed, Susanna Cappellaro, Catherine Backhouse, Gwendoline Christie
  • Duração: 118 minutos
  • Nota:

O passado não parece ter ficado no passado no que depende do diretor inglês Peter Strickland; o cinema desse diretor que começou no final da década passada e chamou atenção em O Duque de Burgundy (2014), homenagem rasgada ao mestre espanhol de horror e erotismo Jesús “Jess” Franco – responsável por clássicos do gênero carregados de experimentação formal, como Ela Matou em Êxtase (1971) – mantém o espírito, ao mesmo tempo iconoclasta e nostálgico, em seu filme mais recente, Vestido Maldito (2018). 

A tradução em português é mais explícita que o original, In Fabric, e talvez até combine com o espírito mais bem-humorado do filme, ainda que apague a conotação sugestiva acompanhada pela proposta estética. Seja como for, o filme não demora a mostrar seu conflito: um vestido mal-assombrado que traz a desgraça a quem o usa, primeiro por erupções cutâneas e ruídos noturnos, e eventualmente, uma espiral de ocasos que vitimam seus usuários.

Vestido Maldito

Como já vimos filmes sobre muitos objetos inanimados mal-assombrados – automóveis (Christine: O Carro Assassino), televisores (Poltergeist), casas (Terror em Amityville), bonecas (Annabelle) – muitas obras recentes que abordam a proposta mostram-se surpreendentemente bem-humoradas, como Rubber – O Pneu Assassino (2010) e Deerskin: A Jaqueta de Couro de Cervo (2019), ambos de Quentin Dupieux e o filme discutido aqui. Na contramão de insuflar medo o a partir de um objeto que tem sua construção levada a sério (como King e Carpenter fizeram com o Plymouth Fury de Christine), tais filmes recentes jogam com os nossos conhecimentos do gênero e revelam-se grandes brincadeiras com seus clichês.

Acima de tudo, Vestido Maldito é uma gozação cinéfila, nascida em algum referencial entre a francesa Eurociné e a italiana Cinecittá. Nomes como o supracitado Franco, os italianos Dario Argento e Mario Bava e até mesmo Roman Polanski em filmes como Repulsa ao Sexo e O Inquilino são fáceis de se evocar aqui, já que Strickland carrega em imagens granuladas de alta sensibilidade, lentes nítidas e iluminadas, quase sem profundidade de campo e filtros coloridos, uma construção visual que, desde o primeiro plano, já evoca uma sensação de estranheza.

Vestido Maldito

É nela que Strickland também constrói a dramaturgia do seu filme, ainda que chegue a soar redundante por contar duas histórias similares: primeiro, a de uma funcionária de banco divorciada que, enquanto aguenta os caprichos do filho, compra o vestido amaldiçoado de maneira desavisada para ir a um encontro romântico, atraindo todo tipo de mau augúrio. E segundo, um assistente técnico de máquinas de lavar tímido e retraído em vias de se casar que ganha um vestido de um amigo como uma piada durante uma despedida de solteiro.

Ambos os arcos estão pontuados por personagens propositalmente esquisitos, como os gerentes de banco extremamente preocupados com protocolo, um chefe rabugento, calado e que devora crachás, e as extremamente produzidas vendedoras da loja onde o vestido é comprado pela primeira vez. As últimas usam perucas, maquiagem de gueixa e roupas armadas e conversam de maneira declaratória e cifrada em contraponto a diálogos normais, sendo as principais responsáveis em estabelecer o estranhamento. 

Vestido Maldito

As histórias são parecidas e Strickland não aprofunda muito seus personagens, isso é uma verdade, mas é curioso como o filme aborda com frequência seu lado mais psicossexual, com personagens frequentemente se vendo impotentes: a funcionária do banco é vista com apreensão pelo filho e a namorada dele; o assistente é subjugado com um símbolo feminino pelo seu brutal círculo social masculino; já a noiva do assistente, apaixonada pelo vestido, vê sexo com indiferença, conversando durante o ato. Suas vidas são transformadas pelo vestido, como um símbolo de empoderamento ou opressão, com o elemento sobrenatural “despindo” seus protagonistas com empregos e atitudes cotidianas, porém incapazes de realizar seus desejos íntimos.

Vestido Maldito pode ser considerado, então, um filme puramente sobre o desejo, que guia todas as suas composições tonais e formais. As composições de quadro geométricas, o paralelismo evocado em certos momentos da montagem, as cores do design de produção berrantes e chamativas a nível quase psicodélico, as atuações quase expressionistas de alguns personagens (repare nos movimentos verticalizados de suas performances), a música sintetizada à lá rock progressivo… Tudo aqui é sobre o que os personagens querem e o que os assombra a nível rotineiro e sobrenatural, tudo brutalmente simplificado. 

Não há muito o que entender; sobram elementos a serem interpretados, porém.

Diferente de O Duque de Burgundy, carregado nas sombras da atmosfera gótica, estamos aqui falando de uma obra que carrega tanto nos contrastes de cores, música e performance que pode-se relacionar em algum nível a outro lançamento do mesmo ano, Mandy, de Panos Cosmatos. A obra do greco-canadense também pegava uma história extremamente simples (o personagem de Nicolas Cage vinga-se dos assassinos da namorada) e “derretia” em uma narrativa extremamente sensorial onde, para além do caráter informativo, importava tanto experienciar os estímulos perturbadores de luz e som organizados pelo diretor, que nos dois casos parecem encarar a si mesmos como artífices de uma arte antes de tudo sensorial. 

Vestido Maldito não chega a se destacar tanto entre outros que recriam as referências do passado de maneira extremamente autoral e artesanal e, em certo nível, é quase uma coleção dos clichês do que está sendo chamado por aí de “pós-horror”, já que recusa fórmulas mais convencionais em nome unicamente do clima. E mesmo que desnecessariamente longo, a ponto de ser repetitivo e previsível, lida com a questão do clichê com uma certa dose de ironia, como se o riso de escárnio fosse um instrumento a mais para desconstruir as relações psicológicas que explora. E, de sua maneira cerebral, olha para trás para investigar o que as antigas estéticas dizem sobre os anseios atuais.

Um grande momento
O clímax – caótico, bizarro e críptico – mas controlado como uma orquestra!

Ver Vestido Maldito no Prime Video 

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.
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