José Padilha já tinha, decerto, angariado visibilidade internacional com Ônibus 174, mas sua consagração internacional foi em 2008 e ela foi em Berlim com Tropa de Elite sendo exibida na mostra competitiva. Esta foi a primeira vez que o ator Wagner Moura esteve no festival. Também para ele, 2008 seria um ano de consagração internacional com Tropa levando o Urso de Ouro das mãos do então presidente do júri internacional, Costa Gavras e que resultou, na sequência, em pequenas participações em filmes de Hollywood (inclusive com Jodie Foster), e no convite da Netflix para ser protagonista de Narcos. Dali, Wagner se tornaria o ator brasileiro mais famoso do mundo.

Com Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro, exibido na Mostra Panorama (a segunda mais importante da Berlinale), o amigo de Lazinho* retornou à capital. Sua terceira vez foi em 2014, com Praia do Futuro, no ano da Copa do Mundo no Brasil e na edição em que a Berlinale, no âmbito programático, dedicou especial atenção ao país continental.

Berlim, Berlim!

Em material disponibilizado pela O2 Filmes, produtora do filme, Wagner declara: “Berlim é de longe o meu festival de cinema favorito. Estive lá três vezes, sendo que em uma delas saímos com um Urso de Ouro. Fiquei muito feliz com a forma com que eles receberam meu primeiro filme (como diretor) lá, colocando-o na mostra principal. Berlim é também, de todos os grandes festivais, o mais político. Faz todo sentido que Marighella estreie lá.

Daqui pra frente…

Em 2019, na última edição com Dieter Kosslick no cargo de diretor, Wagner retorna ao seu “festival preferido“ e, desta vez, como diretor. Marighella será exibido na Mostra Competitiva e, por isso, terá devida atenção da imprensa internacional, porém não estará na corrida pelos Ursos. O mesmo acontece com o mais novo trabalho da diretora belga Angès Varda, que também não estará na disputa, ou seja, Wagner estará, de toda a forma, em melhor companhia.

O filme, produzido por Fernando Meirelles (Cidade de Deus), conta a história do militante brasileiro e baiano Carlos Marighella (1911-1969), assassinado durante a ditadura militar. Em 1964, perseguido pela polícia, ele se escondeu dentro de um cinema que exibia uma sessão de Matinè e, mesmo assim, foi capturado. Que bom que o fotógrafo do jornal “Correio da Manhã” também estava no cinema naquela tarde e pode acompanhar tudo.

No Zeitgeist de crescimento desenfreado de frentes, movimentos e governos de uma direita populista, nacionalista e extremista, o filme de Wagner chega como um alívio na Berlinale que, como festival essencialmente político que é, terá perguntas a fazer sobre o andar da carruagem no país chamado Brasil. Em entrevista à Folha, Wagner declarou que seu filme “deve desagradar à direita e à esquerda”.

O fenômeno de avassalador crescimento de governos opressores (paradoxalmente eleitos pela ferramenta democrática em forma de eleições livres) tem semelhanças com uma epidemia sem fronteiras: na Hungria, na Polônia, nos EUA, em menor intensidade na Alemanha, mas em especialmente dolorosa forma no Brasil.

Não é a primeira vez que um filme sobre Carlos Marighella será exibido em terras berlinenses. O documentário Marighella – Retrato Falado do Guerrilheiro (2001), de Silvio Tendler, também já foi exibido em Berlim, na Casa das Culturas do Mundo, durante o já extinto Festival Première Brasil, uma coletânea anual de filmes exibidos em edições anteriores do Festival do Rio.

Wagner Moutra não é “somente“ um Routinier na Berlinale, mas também a cidade de Berlim já é solo devidamente inspecionado pelo ator e diretor baiano.

Na noite de encerramento da Mostra, sob a minha coordenação, “Cinema na Embaixada” em Berlim (10/01), depois da exibição de Aeroporto Central, do diretor cearense Karim Aïnouz, radicado em Berlim desde 2004, ele conversou exclusivo com o Cenas sobre a estada de Wagner na capital em 2013.

O acaso não dorme no ponto. Foi exatamente naquela mesma tarde, poucas horas antes da exibição, que foi divulgada nota pela Berlinale sobre o retorno de Wagner para o festival desta vez, como diretor. Foi um desdobramento natural e orgânico conversar com Karim sobre isso:

Como foram os meses que Wagner Moura passou em Berlim para rodar Praia do Futuro?
Ele ficou dois meses aqui. Foi um trabalho muito grande de imersão. Ele nunca tinha ficado muito tempo aqui e foi muito bonito ele descobrindo a cidade. Foi muito bacana também construir, fora do set de filmagens, a relação dele com o Jesuíta Barbosa, que fazia o papel do irmão que veio buscá-lo. Foi muito emocionante poder acompanhar os passos do Wagner, descobrindo a cidade.

A ideia dele vir, anteriormente às filmagens, para Berlim foi sua ou dele?
Foi nossa. Era muito importante, de fato, a relação dele com a cidade, que ele, de fato, tivesse alguma familiaridade com Berlim.

Em sua obra de estreia na cadeira de diretor, Wagner Moura conta com um elenco que não fica devendo em nada nos quesitos talento e visibilidade. Seu Jorge, internacionalmente conhecido desde Cidade de Deus no papel de Mané Galinha, e, na sequência, com a habilidade como ator ratificada em A Vida Marinha com Steve Zissou (2004), de Wes Anderson, além de já ter marcado presença na tela da Berlinale com Tropa de Elite II e, claro, pela sua frequente presença nos palcos europeus. Seu Jorge entrou no barco depois que o rapper Mano Brown, jogou a toalha com as filmagens já iniciadas.

Bruno Gagliasso, dono dos olhos mais lindos da TV brasileira, dá vida ao personagem Lúcio, representante do aparato opressor. É muito improvável que o ator e multi-empreendedor (co-proprietário de pousada em Fernando de Noronha e do restaurante de comida Plan-Based “Le Manjue”, em São Paulo) esteja em Berlim, já que as gravações da novela “Sétimo Guardião”, de Aguinaldo Silva têm sido tão intensas (até mesmo para o parâmetro de uma novela das 9), e até em domingos, se grava no Projac.

Adriana Esteves, a eterna Carminha de Avenida Brasil e a temida promoter e ainda mais temida cafetina, Lauretta, da obra de João Emanuel Carneiro, Segundo Sol, vive no filme de Wagner a companheira de Marighella. No cinema, ela já atuou em Benzinho, filme estreou em Sundance e ganhou vários Kikitos. Além disso, esteve também em Canastra Suja, em uma atuação incrível.

O elenco também conta com representantes da velha e nova escola de dramaturgia. Entre eles, Herson Capri, que parece que nasceu com a missão de, brilhantemente, personificar políticos corruptos, e Humberto Carrão que tem o programa sobre Curtas Universitários, Pausa pro Café no Canal Brasil.

A estreia do filme em circuito nacional está prevista para 18 de abril e, segundo também o material disponibilizado pela produtora 02 Filmes, Marighella não percorrerá a trilha de festivais no Brasil. Além da aversão já conhecida de Wagner aos holofotes, tapetes vermelhos e jornalistas com uma queda pelo sensacionalismo, esta estratégia pode dar muito certo, se houver respaldo do filme em Berlim, como me parece factível pelo caráter feliz de combinações: festival político, tema político, mostra competitiva e a voracidade dos cinéfilos de Berlim em querer saber como anda a carruagem em Terra Brasilis. A coletiva de imprensa, promete.

Enquanto esse dia não chega, cinéfilxs impacientes podem acompanhar a conta no Instagram @marighella_ofilme, por onde anda o filme e com os passos percorridos até aqui.

Foto do destaque: Gerhard Kassner|Berlinale

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