Crítica | Streaming

18 Presentes

(18 Regali, ITA, 2020)
Drama
Direção: Francesco Amato
Elenco: Vittoria Puccini, Benedetta Porcaroli, Edoardo Leo, Sara Lazzaro, Marco Messeri, Betty Pedrazzi, Alessandro Giallocosta
Roteiro: Francesco Amato, Massimo Gaudioso, Davide Lantieri, Alessio Vicenzotto
Duração: 115 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆
Onde ver: Netflix

A cinematografia italiana é adepta ao melodrama na sua essência, e nunca tentou se afastar dessas origens, sendo até hoje adepta regular desse tipo de projeto de caráter popular, de emoções baratas e linguagem acessível – tudo isso muitas vezes multiplicado por 2. O diretor Francesco Amato não tem medo de se reapropriar dos elementos do gênero para oxigenar uma história que poderia ser altamente lacrimogênea e depressiva, ao menos um pouco. Não que estejamos diante de um produto sutil ou repleto de camadas densas, mas 18 Presentes é sedutor, principalmente por jogar tanta luz sobre o que poderia ser apenas um vale de lágrimas.

Quando cito luz, também o faço pela literalidade. Não há imagens ocres ou pálidas no filme, tudo parece exalar luminosidade e juventude, apesar de uma tragédia iminente. O peso dramático cerca a narrativa, mas imageticamente o que temos é uma profusão de raios de sol que invadem as imagens, trazendo um clima de aconchego para o projeto. Em poucos momentos nos percebemos manipulados – o que costuma ser a tônica de um melodrama tradicional – e isso se justifica pelo clima de leveza com que se tenta tratar algo potencialmente pesado, como uma relação de amor entre mãe e filha não consumada pela morte.

18 Presentes inverte a questão do clássico de Frank Capra A Felicidade Não se Compra: se lá acompanhávamos a jornada do herói a descobrir como seria um mundo sem a sua presença, aqui a premissa parte de um lugar mágico do passado, onde a protagonista Anna ainda não era nascida, para fazê-la encontrar a mãe que ela nunca conheceu. Elisa morreu ao dar à luz a filha por causa de um tumor recém-descoberto, e a menina cresceu revoltada sem uma presença feminina em casa, e assombrada anualmente com os presentes que sua mãe já deixou comprados. Na noite dos seus 18 anos, a jovem vai poder ter contato com o amor que nunca experimentou.

Se nos anos 1990, o “breguinha” Minha Vida colocava um moribundo Michael Keaton para deixar inúmeras fitas gravadas para o bebê que não veria nascer da gravidez de Nicole Kidman, aqui o jovem diretor faz um mix de possibilidades nessa brincadeira temporal que também flerta com o espiritual como o longa de Bruce Joel Rubin (Oscar por Ghost). A ânsia de travar contato com a mãe foi tão grande que Anna tem uma ‘experiência de quase morte’ e se descola da realidade por um tempo, ou na verdade não passa de uma trama mágica e assumida que envereda por esse realismo narrativamente fantástico? O filme não se furta em apontar essas possibilidades e amplia seu canal de comunicação para também alcançar o divino.

A dupla de atrizes protagonistas injetam muita propriedade em cena, especialmente Benedetta Porcaroli (que se assemelha a brasileira Bianca Bin) ao, inclusive, provocar no espectador os piores sentimentos em relação a uma adolescente problemática, típica rebelde sem causa. Quando mãe e filha se cruzam e vemos a personalidade de uma reverberar na outra, em características complementares, o talento de Benedetta e também de Vittoria Puccini realçam uma à outra, dando tônus à musculatura emocional do projeto, que depende não apenas do talento de ambas, como também da química que precisa nascer daquelas relações.

Ainda que não seja uma produção com um grau de novidade avassalador no mercado, não dá para negar que 18 Presentes surpreende quem estava esperando um filme descartável lacrimoso que esqueceríamos rapidamente. Ok, talvez tudo isso seja verdade, mas tem tanto coração e carisma no projeto, seu frescor ao contar essa trama é tão envolvente, que, simplesmente, não aparece estranho o encontro no provador de uma loja, simplesmente porque o público queria aquela cena, independente do que precisasse ocorrer para que ela acontecesse. Neste momento, a emoção já deu as caras, e o filme cumpriu o seu objetivo sem envergonhar.

Um Grande Momento:
Don’t look back in anger.

Assistir na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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