Crítica | FestivalMostra SP

1986

Mal difuso

(1986, ALE, BLR, 2019)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Lothar Herzog
  • Roteiro: Lothar Herzog
  • Elenco: Daria Mureeva, Evgeni Sangadzhiev, Vitali Kotovitski, Helga Filippova, Aleksei Filimonov, Aleksei Kravchenko
  • Duração: 77 minutos
  • Nota:

Algumas pessoas sentem atração pelo horror, não aquele que se comunica diretamente com a violência, ou com a conjuração de algum mal supremo, nem muito menos aqueles que promovem o pior para terceiros. O mal palpável, aquele que mora dentro de nós e talvez nunca floresça completamente sem os gatilhos necessários, aquele mais profundo e psicológico e que está escondido em nosso subconsciente e que talvez somente uma conjunção de fatores o liberte. Algo que é mais forte do que o próprio ser e que o diretor estreante em longas Lothar Herzog se interessa em 1986, título dos mais curiosos da 44ª Mostra SP.

Logo no início do filme, avistamos uma nuvem densa de poeira da estrada a engolir o carro de Lena, uma jovem bielorrussa que o filme divide em gomos, entre tempos distintos de acontecimentos, de sensações e que aos poucos vão se aglutinando narrativamente. Como a abraçar um estágio tanto de imersão da protagonista como a aceitar essa carga sutil de símbolos que cercam o roteiro do filme sem sufocá-lo, apenas acenando na direção da imaginação do espectador. Esse estado metafórico de eventos se mantém afastado da espinha dorsal do filme, que se arma dessas elipses que trazem os tempos do filme em movimentos contínuos, e que abrem mão do sonho por muito tempo, sendo essa própria forma já suficientemente onírica.

1986, filme de Lothar Herzog na 44ª MostraSP

Lena é uma personagem que realmente passeia e está inserida em um universo onde as influências negativas se fazem presente. Uma jovem mulher em constante conflitos com o namorado por quem é apaixonada e que acabou de ver o pai ser preso por transporte de carregamentos ilegais, a protagonista é flagrada pelo filme em momento de decisão coletiva, tanto emocional quanto familiar, e o diretor não elabora essas questões tão bem visualmente quanto narrativamente, inserindo suas alegorias de maneira muito pontual, a ponto de não identificarmos uma identidade como autor, mas absorvendo seu roteiro e suas qualidades de desenvolvimento.

O “pulo do gato” de 1986 é quando o filme revela o destino das viagens ilegais de Lena e seu pai, que os levam a Chernobyl. É como se a energia que se desenvolve ao redor da personagem encontrasse literalmente um caminho para a canalização. Ao entrar em contato com a geografia do lugar que gerou o desastre nuclear russo, lena não percebe de imediato, mas há uma conexão que o espectador capta com maior intensidade. É a partir desse movimento inconsciente que o filme então desenvolve sua base de reflexão acerca dessa já citada sedução do mal mais profundo, aquela que consome a nós e ao nosso quadrante; é ao chegar na zona de contaminação que suas sinapses se interligam ao que já se desenvolvia nela.

A ideia desse amálgama de situações vivenciada por uma pessoa que eclode internamente é possível pela entrega visceral de Anna Anisenko, que se afasta da definição mais rasa de visceralidade para desenvolver uma composição calcada na internalização, que só é verbalizada e explorada de dentro pra fora ao longo do filme, se comportando como uma jovem contraditória entre realizar seus sonhos e seus amores, e a obrigação que deve enquanto membro de uma família. São proposições muito sofisticadas que se desenvolvem na superfície do projeto sem nunca deixar de absorver sua profundeza.

Servindo também como material que recupera uma memória sombria que paira sobre não apenas o local como sobre os “herdeiros de Chernobyl”, 1986 forma uma absorção mais sensorial sobre os eventos que ainda ecoam sobre o lugar quase 40 anos depois do que a minissérie já histórica do ano passado, assinada por Craig Mazin. Aqui, Chernobyl é um fantasma maldito que se aproxima de suas vítimas e corrói suas vidas, e a tal névoa do início é mais uma imagem cheia de significado sobre como não se apaga uma tragédia nem das gerações que não a viveram.

Um grande momento
Lena se rende à floresta

[44ª Mostra de São Paulo]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo