As imagens parecem vir de um lugar interditado. Em A Fidai Film, Kamal Aljafari recompõe pedaços de um arquivo confiscado em 1982 pelo exército israelense durante a invasão do Líbano, quando o acervo do Centro de Pesquisas Palestinas em Beirute foi tomado e, com ele, décadas de memória visual de um povo. Ver essas imagens agora é testemunhar o passado e também perceber como o cinema pode devolver vida àquilo que tentaram apagar. Algo que ecoa de modo ainda mais violento nos dias de hoje, diante do genocídio em Gaza, onde corpos e memórias continuam a ser exterminados.
O gesto do diretor não é apenas de resgate, mas de manipulação. Ele acelera, pausa, risca, desfoca, faz o arquivo falar de outro modo. Ao intervir sobre o material, Aljafari não busca restaurar uma integridade impossível, e sim expor a violência que está no próprio fato de esses fragmentos existirem apenas como ruínas de um saque. Cada corte denuncia a tentativa de silenciamento, mas também abre uma brecha para reimaginar o futuro.
A questão palestina aparece aqui de maneira oblíqua e insistente. Não há discursos nem depoimentos, há imagens atravessadas por ruídos, sempre lembrando que a guerra contra a Palestina não se deu apenas no campo físico, mas também no simbólico, no controle da memória. A colonização se revela no enquadramento, na escolha do que filmar, no modo como os corpos foram representados. O filme devolve o olhar, mostrando que a imagem pode ser também território de disputa.
Há uma dimensão sensorial que reforça a mensagem. O som funciona como camada de estranhamento, criando uma experiência de ruído constante, quase como se estivéssemos dentro do processo de deterioração da película. Não é um cinema que reconforta, ele coloca o espectador diante de uma instabilidade permanente, como se cada plano pudesse desaparecer a qualquer instante.
Fidai significa combatente, aquele que se sacrifica. O título carrega essa carga de luta, e o filme de Aljafari traduz esse espírito para o campo das imagens. Em vez de reconstruir linearmente uma história, ele insiste no gesto de resistência: a de não deixar que o apagamento seja completo. A Fidai Film é, assim, um ato político em forma de cinema experimental, um lembrete de que a Palestina não luta apenas contra bombas e cercos, mas também contra o apagamento da sua memória.


