Um ícone da literatura que virou clássico do cinema e depois se reinventou como fenômeno dos palcos chega novamente aos cinemas. Wicked chega dividido, com a parte mais imponente no primeiro filme, onde estavam a trama mais forte e as músicas que carregam o peso emocional do primeiro ato. Fica o desafio que rondava a adaptação desde o início, como prolongar a magia quando o impacto inicial já foi gasto e como sustentar um mito que sempre funcionou como figura refletida do nosso tempo.
Wicked: Parte II não deixa de ser um reflexo do agora. Vivemos uma época seduzida pela superfície, encantada por versões rápidas e por verdades que brilham antes de serem confirmadas. O preconceito encontra atalhos fáceis para se instalar e a criação do inimigo útil continua sendo mecanismo de poder. A história de Elphaba conversa com esse presente porque mostra como uma sociedade inventa a figura que deseja perseguir. A mentira se espalha com a velocidade do canto e a bruxa que se culpa serve para manter o sistema em movimento.
Dentro desse cenário, a política da falsa narrativa molda Oz. O medo é alimentado e difundido, a ficção oficial substitui o que é visto, a aparência governa com mais força do que qualquer discurso. O que se cria não é apenas a vilã, mas a necessidade de acreditar nela. Nesse ponto, Oz se torna um microcosmo de um presente saturado de ruídos, onde as versões se sobrepõem aos fatos e onde cada mito é ferramenta de controle.
Tecnicamente, Jon M. Chu assume risco claro ao tentar misturar referências que carregam peso próprio. Há a ambição de unir o cinema clássico, a tradição da Broadway e a fantasia épica, com cenários amplos e mundo construído com corpo e textura. A divisão em dois filmes altera o ritmo e acentua a desigualdade entre os atos, mas o cuidado visual é evidente. A paleta evita o excesso brilhante, os ambientes respiram e a grandiosidade busca diálogo com os sentimentos e a intimidade, ainda que nem sempre alcance o equilíbrio esperado.
O filme se sustenta quando a técnica encontra as intérpretes. Cynthia Erivo constrói sua Elphaba com uma presença que não precisa de ornamento, uma voz que preenche tudo e dà à personagem firmeza e ferida ao mesmo tempo. Ariana Grande, com outro tipo de delicadeza, encontra o brilho de Glinda e sustenta os vocais com segurança, ainda que, diferentemente da primeira parte, oscile nos momentos que exigem maior profundidade dramática. As duas constroem juntas a espinha da narrativa e o contraste entre elas mantém o filme de pé mesmo quando a estrutura vacila. A trilha, embora menos contundente, ainda acompanha esse movimento, criando um mundo que não existe apenas para ser visto, mas para ser sentido.
Nem tudo funciona. Além da fotografia, que não precisa ser comentada porque muito já se falou sobre isso, há falhas de ritmo, cenas que se alongam sem necessidade, reverência excessiva ao filme de 1932 e escolhas que perdem impacto por repetição. Ainda assim, existe algo que resiste, algo que permanece entre as imagens e que mantém o encanto vivo. Wicked: Parte II não fecha o mito, não encerra nenhuma revolução, apenas revela como histórias assim continuam necessárias em um mundo que cria suas próprias bruxas. E talvez seja nesse resíduo de magia, nesse lugar onde o mito e o presente se cruzam, que o filme encontre sua força.
Um grande momento
No armário


