- Gênero: Drama
- Direção: Josh Safdie
- Roteiro: Josh Safdie, Ronald Bronstein
- Elenco: Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion, Kevin O’Leary, Tyler the Creator, Abel Ferrara, Fran Drescher, Penn Jillette, Sandra Bernhard, Spenser Granese
- Duração: 150 minutos
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Existe uma ideia de masculinidade que se constrói pela necessidade constante de se provar. Um homem vale pelo espaço que ocupa, pelo barulho que produz, pela imagem que sustenta diante dos outros. Marty Supreme nasce desse imaginário e o observa de perto, entendendo como a fragilidade masculina se organiza a partir da performance social. O filme de Josh Safdie olha para a auto-afirmação contínua como sintoma de um mundo em que ser visto equivale a existir, e em que deixar de ser percebido é o verdadeiro fracasso.
Marty acredita profundamente na própria imagem, e sua história se organiza a partir dessa convicção, quase infantil, que confunde certeza com identidade. Ele existe em estado permanente de performance, vivendo como se estivesse sempre sendo observado, avaliado, medido. E ele ocupa os espaços com excesso. Excesso de confiança, de presença e de palavra.
Seu corpo antecede qualquer situação, sua voz tenta se impor antes mesmo que o ambiente peça. No início, esse comportamento cria um magnetismo evidente, a energia contagia e a promessa de grandeza até parece possível, mas com o tempoo o desgaste chega e a insistência cansa. O personagem se torna pesado dentro do próprio movimento.
Embora o universo do tênis de mesa traga alguma curiosidade, o interesse da trama está menos nas ações e mais na forma como Marty atravessa o mundo. Cada ambiente vira um palco, cada interação uma tentativa de domínio. Existe uma tensão constante entre a imagem que ele constrói de si e a precariedade concreta que o cerca. Marty se vê como exceção, enquanto a realidade o empurra para um lugar de “apenas mais um”. E seus dias são recheados de frustração.
Safdie não organiza a trajetória como fábula moral, se interessa pelo processo de esvaziamento gradual, expondo a grandiloquência que perde impacto e o discurso que se repete. A persona começa a sobreviver por inércia, sustentada mais pela insistência do que por substância. Marty Supreme acompanha esse desgaste com atenção, sem pressa, deixando que o próprio ritmo revele o colapso silencioso.
Mesmo que volte no tempo, inclusive com uma ambientação muito caprichada, e opte por uma fotografia nostálgica, a contemporaniedade de Marty Supreme é inegável, porque a estrutura persiste. O retrato da masculinidade baseada em auto-afirmação constante, que dependente de visibilidade para existir é muito nítido e poderia habitar as quadras de tênis de mesa — ou qualquer outro lugar — de hoje em dia também. O personagem parece incapaz de suportar o silêncio, como se desaparecer do olhar alheio significasse deixar de ser. Essa inquietação atravessa a mise-en-scène, a duração das cenas e a repetição dos gestos.
Visualmente, o filme opera nesse mesmo registro. Sem que seja um problema, tudo parece um pouco deslocado e alguns tons acima do necessário. O excesso funciona como comentário interno da narrativa, acompanhando o personagem até o ponto em que sua encenação começa a se tornar insustentável.
Ao permanecer com Marty até o limite de sua própria construção, Marty Supreme revela o custo de viver como imagem, e o que sobra é um sujeito preso àquilo que projetou, incapaz de desmontar a própria performance. Agora, quando a encenação se esgota, o que ainda permanece de pé?
Um grande momento
Pela vidraça ele via


