(The Bride!, EUA, FRA, 2026)
Há mitos que persistem porque carregam feridas abertas. A criatura imaginada por Mary Shelley há mais de dois séculos continua retornando ao cinema porque fala daquilo que a sociedade prefere não reconhecer em si mesma: o medo do que é diferente, o abandono de quem foge à norma e a facilidade com que se produzem monstros para preservar uma ordem aparentemente estável. A Noiva!, dirigido por Maggie Gyllenhaal, parte desse território conhecido para deslocá-lo de maneira radical. Em vez de revisitar simplesmente o mito de Frankenstein, o filme reabre sua origem para perguntar quem ficou de fora da história e o que acontece quando essas figuras esquecidas finalmente ocupam o centro da narrativa.
Há algo de profundamente justo em Gyllenhaal retornar a Shelley para contar uma história sobre mulheres que foram roubadas de si. Shelley publicou Frankenstein em 1818 e passou a vida cercada por um ambiente intelectual que admirava sua obra enquanto, em muitos momentos, parecia ainda desconfiar de sua autoria, como se uma imaginação daquela escala precisasse de tutela masculina. Em A Noiva!, a diretora parte justamente desse ponto. O prólogo faz Shelley falar do além, afirmando que sua história estava incompleta, e a põe para invadir a mente de Ida, uma mulher da Chicago gângster dos anos 1930. A autora volta então para reclamar o que lhe foi arrancado, e o faz através de outro corpo feminino ameaçado.
Esse corpo é o de Ida, que sabe demais sobre o submundo comandado por Lupino (entendedores entenderão). É ele quem manda matá-la. A morte da personagem inaugura a narrativa e já estabelece o ponto central de A Noiva!: um mundo em que a violência contra mulheres é engrenagem de funcionamento. Ida morre porque viu, porque sabe, porque existe dentro de uma estrutura que transforma corpos femininos em matéria descartável.
A morte de Ida não serve apenas para viabilizar a trama fantástica da reanimação. Ela redefine a própria figura da Noiva. Em vez de nascer como simples companheira fabricada para satisfazer a solidão masculina, ela surge de um feminicídio e essa escolha muda tudo. A criatura feminina deixa de ser promessa romântica e passa a carregar, no próprio corpo reanimado, a marca e a memória de uma violência estrutural. Mesmo quando a personagem perde a memória, o filme insiste em dizer que o corpo sabe, que a fúria sabe, que a história sabe. A Noiva volta sem lembrar exatamente quem foi, mas volta atravessada por tudo o que foi feito contra ela e contra tantas outras.
Por isso o feminismo do filme não está só no discurso. Ele está no reposicionamento do mito. No clássico A Noiva de Frankenstein, dirigido por James Whale, a personagem vivida por Elsa Lanchester aparece por poucos minutos, mas se torna um ícone absoluto do horror clássico. A imagem é inesquecível, mas a personagem quase não existe. Gyllenhaal parte dessa insuficiência. A nova versão expande aquela figura silenciosa até transformá-la em sujeito, dando à personagem espaço para identidade, desejo e escolha dentro de uma narrativa que antes a mantinha quase como símbolo.
A diretora não economiza e traz a questão para outros momentos de A Noiva!. Frank procura a Dra. Euphronious acreditando que encontrará um homem, pois o simples Doutor faz com que ele imagine uma autoridade masculina, e o choque diante da cientista resume um mecanismo social inteiro. Algo parecido acontece no núcleo policial, em que o detetive arrasta consigo uma assistente brilhante, Myrna, também confundida pelo sobrenome e tratada pelo mundo como secretária de luxo, quando o filme deixa claro que ela enxerga mais e pensa melhor do que os homens ao redor. O filme observa essas reações como sintomas de uma cultura de desmerecimento e menosprezo.
Ao mesmo tempo, para além da questão da opressão de gênero, A Noiva! também fala da solidão do monstro. Frank chega a Chicago depois de um século de isolamento, devastado pela necessidade de companhia. A criatura carrega no corpo o peso de décadas de rejeição, alguém que atravessou o tempo tentando compreender um mundo que sempre o recebeu com medo ou repulsa. Ele não procura apenas amor; procura descanso, alguém diante de quem não precise justificar sua existência. Sua busca por aceitação encontra modelos já legitimados pelo mundo, tenta se encaixar em outras superações e imagina que uma companheira talvez lhe ofereça uma forma de pertencimento. A ideia de amor surge contaminada por essa esperança de encaixe. Amar, para Frank, significa finalmente caber no mundo.
A trama gângster entra justamente para expor a incoerência. Lupino não é apenas um vilão de gênero inserido na Chicago estilizada dos anos 1930. Ele funciona como a versão socialmente aceita da monstruosidade. Frank é o corpo remendado que todos rejeitam; Lupino é o homem perfeitamente integrado à ordem social, alguém cuja violência se exerce com a naturalidade de quem sabe que o mundo foi organizado para permitir isso. É ele quem manda matar Ida e quem conserva como troféus as línguas das mulheres que mandou assassinar, uma coleção grotesca que transforma o silenciamento feminino em objeto material, quase em arquivo de poder. Um ser é tratado como monstro simplesmente por existir; o outro prospera justamente porque sua brutalidade foi incorporada às engrenagens do mundo.
O fato de o filme não abandonar sua filiação aos anos 1930. A Noiva! não usa essa década apenas como cenário estilizado ou nostalgia visual. Gyllenhaal mergulha deliberadamente na gramática daquele cinema: o musical que irrompe no meio da narrativa, o noir urbano, o horror da Universal, o melodrama criminal. Tudo convive dentro de uma mesma chave excessiva. O filme parece entender que o mito de Frankenstein já pertence a esse imaginário visual e decide dialogar com ele. Em vez de reconstruir os anos 30 com reverência, a diretora mescla esse artifício clássico com sangue, sexo e uma fúria muito contemporânea.
Quando o filme finalmente encontra seu original, o encontro não funciona como simples homenagem. É quase uma assombração histórica. O passado do cinema surge diante da nova narrativa como memória e como assombro, estopim de perseguição. A imagem da Noiva que atravessou décadas reaparece em uma confusão 3D lembrando que aquela mulher já existia antes, mas reduzida à potência icônica de um penteado, de um grito e de uma recusa. Gyllenhaal a tornou sujeito, abrindo espaço dentro do mito para aquilo que sempre esteve subentendido.
No fim, o filme olha para Mary Shelley, para a Noiva de 1935 e para todas as mulheres que a história tentou calar e costura essas figuras numa mesma linhagem de apagamento e retorno. A criatura continua procurando amor. A Noiva! procura algo mais radical: a possibilidade de existir sem ter sido criada para alguém. E nesse deslocamento o velho mito finalmente muda de forma.
Um grande momento
Sessão 3D


