- Gênero: Drama
- Direção: Oliver Hermanus
- Elenco: Paul Mescal, Josh O’Connor, Chris Cooper, Peter Mark Kendall, Molly Price, Raphael Sbarge, Hadley Robinson, Emma Canning, Briana Middleton, Alessandro Bedetti
- Duração: 128 minutos
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Há filmes que tentam falar sobre o amor através do gesto grandioso. Já outros preferem o detalhe: um olhar demorado, uma canção compartilhada, uma memória que atravessa o tempo. A História do Som, dirigido por Oliver Hermanus, pertence ao segundo grupo. O filme parte de uma ideia simples e delicada: a de que a música pode funcionar como linguagem íntima entre duas pessoas, um território onde aquilo que não pode ser dito encontra outra forma de existir.
A história acompanha Lionel e David, interpretados por Paul Mescal e Josh O’Connor. Eles se conhecem em 1917, no Conservatório de Boston, e imediatamente descobrem uma afinidade rara: o amor pela música folk e pela possibilidade de registrar sons e vozes que o tempo tende a apagar. Anos depois, os dois partem juntos pelo interior do Maine com o objetivo de gravar canções populares de seus compatriotas, transformando essa viagem num projeto quase arqueológico de preservação da memória sonora.
A música funciona, desde o início, como um elo entre eles. Antes mesmo de qualquer declaração explícita, é o ato de cantar que estabelece essa ligação. Há algo de profundamente íntimo na forma como o filme constrói essa aproximação. Quando Lionel canta e David escuta, ou quando ambos registram as vozes de outras pessoas, o que está em jogo não é apenas a coleta de canções, mas uma tentativa de capturar o tempo que passa, as histórias que desaparecem, os afetos que raramente encontram espaço para existir plenamente. A própria etnomusicologia que atravessa o projeto dos personagens se torna metáfora de algo maior, uma tentativa de preservar aquilo que o mundo insiste em perder.
Nesse contexto nasce o romance entre os dois, um amor marcado desde o início por uma espécie de impossibilidade histórica. Ambientado nas décadas que cercam a Primeira Guerra Mundial, o filme observa esse sentimento crescer num mundo onde simplesmente não há lugar para ele. O afeto entre Lionel e David precisa existir nas margens, em cartas, em encontros breves, em viagens compartilhadas que parecem suspender momentaneamente as regras do mundo exterior.
Hermanus opta por uma abordagem propositalmente contida para contar essa história. A relação entre os dois personagens é construída muito mais através de gestos silenciosos do que por grandes explosões emocionais. Há uma escolha clara por privilegiar o vínculo intelectual e sensível que nasce entre eles, deixando a intimidade física quase sempre sugerida. O filme parece interessado em registrar um tipo de proximidade que se constrói na convivência, na música e na escuta.
Essa contenção funciona muito bem no primeiro movimento da narrativa. A descoberta mútua dos personagens, a viagem em busca das canções e a atmosfera quase contemplativa das gravações criam momentos de verdadeira beleza. Quando a música entra em cena, o filme encontra sua pulsação emocional. As canções que Lionel e David registram carregam histórias de vida, memórias familiares e ecos de uma América rural que desaparece lentamente.
Porém, à medida que a narrativa avança, algo começa a se dissipar. O longa mantém seu ritmo introspectivo, porém a progressão dramática se torna cada vez mais insossa e o que no início parecia delicadeza passa a beirar a estagnação. A história continua avançando no tempo, os personagens seguem seus caminhos, mas a sensação de urgência emocional diminui.
Esse enfraquecimento não vem da ausência de ideias, e sim da dificuldade de transformá-las em movimento dramático. A História do Som parece às vezes tão comprometido com sua própria atmosfera contemplativa que acaba perdendo força narrativa. O amor que antes parecia vibrar nas canções e nos silêncios começa a se diluir numa sucessão de cenas que repetem o mesmo estado melancólico e, se o filme continua funcionando, é, sobretudo, por causa das atuações centrais.
Paul Mescal constrói Lionel como uma presença sensível, alguém que parece viver o mundo através da música. Há algo de frágil e ao mesmo tempo luminoso na forma como o ator ocupa a tela. Lionel observa, escuta, absorve tudo ao redor. Mescal consegue transmitir essa interioridade sem recorrer a gestos excessivos, trabalhando muito mais com o silêncio e com pequenas inflexões emocionais.
Josh O’Connor, por sua vez, oferece um contraponto mais contido e cerebral. Seu David é alguém cuja paixão pela música parece atravessada por uma dimensão intelectual mais forte, quase acadêmica. O’Connor trabalha com uma reserva emocional que cria uma dinâmica interessante com a sensibilidade de Mescal. Quando os dois dividem a cena, o filme encontra seus momentos mais vivos.
A química entre os atores é evidente. Eles constroem um relacionamento que parece nascer naturalmente da convivência e da escuta mútua. Em muitos momentos, basta um olhar entre os dois para que o espectador compreenda aquilo que o filme decide não verbalizar.
Talvez por isso o sentimento que permanece ao final seja ambíguo. A História do Som é um filme bonito, sensível e profundamente interessado na ideia de memória. Sua premissa, a de que registrar sons é também registrar vidas, possui uma dimensão poética inegável. Ao mesmo tempo, a narrativa parece se esvaziar à medida que avança, como se o filme tivesse dificuldade de sustentar a mesma intensidade emocional que estabelece no início.
Ainda assim, há algo que resiste. Talvez porque, como as canções que Lionel e David tentam preservar, certas histórias sobrevivam não pela força da trama, mas pela delicadeza com que são lembradas. Nesse sentido, o filme acaba funcionando como uma espécie de elegia: não apenas a um amor impossível, mas à própria tentativa de guardar aquilo que o tempo insiste em levar embora.
Um grande momento
Na estação de trem


